“1.500 formas de ver as Cataratas”, por Áurea Cunha

(*) Este texto foi escrito em 2004, ano em que a fotojornalista Áurea Cunha desenvolveu o ensaio fotográfico “Todas as Cores do Mundo – Retrato da Multiculturalidade Iguaçuense” em que abordou a diversidade étnico-cultural de Foz do Iguaçu através de fotografias de mulheres residentes na cidade.
Huguette Petit Girard, nascida na Argélia, foi uma das convidadas para posar e falar sobre sua vinda à fronteira trinacional. O texto nos transporta a um relato emocionado de como as Cataratas a impactou. Huguette faleceu em 2 de setembro de 2020, na cidade que escolheu para viver e divulgar.
Huguette em uma reprodução do painel que compunha a exposição “Todas as Cores do Mundo” (Foto: Áurea Cunha)

 

“Diz o ditado que um é pouco, dois é bom, três é demais… Para a franco-argelina Huguette Petit Girard, no entanto, a máxima popular não vale. A primeira vez que ela esteve nas Cataratas, foi ainda como turista, em 1975. O amor foi à primeira vista e ela prometeu voltar um dia.

A oportunidade aconteceu treze anos depois, em 1988, quando seu marido veio trabalhar em um hotel de Foz do Iguaçu. Hoje, passados 15 anos, a guia de turismo Huguette é mãe de dois adolescentes iguaçuenses e contabiliza mais de 1.500 visitas à maior atração turística do Sul do país. Sempre, diz ela, com um novo olhar e novas descobertas.

“Todo dia eu descubro um pássaro, uma borboleta, que nunca vi. Existe uma, por exemplo, que eu tinha visto umas duzentas mil vezes antes de perceber um aspecto que é só dela. Eu nunca tinha notado que, com as asas fechadas, ela imita uma folha. Então é assim, a gente nunca vai ver tudo.”

Para a guia, tudo o que é vivo evolui constantemente e nunca é a mesma coisa. Ela compara com uma obra de arte. “Se você gostar, vai ficar horas admirando um quadro. Agora, imagine se você tiver à frente uma obra que muda constantemente. Claro, que se você olhar superficialmente, só vai ver o óbvio.”

 

Filha de franceses, nascida na Argélia, então colônia francesa, Huguette veio ainda pequena morar na Argentina com seus pais. Lá, formou-se em Análise de Sistemas, carreira que teve de abandonar, quando chegou em Foz do Iguaçu. “O mercado de trabalho era muito restrito”, explica, contando como começou naquilo que viria ser sua atividade profissional na fronteira. “Por causa do idioma francês, virei guia de turismo no mesmo ano que cheguei aqui.

 

Culta, bem articulada, ela demonstra, antes de tudo, sensibilidade. “Aquele lugar é tão maravilhoso, deixa a gente tão bem, de astral alto, equilibrado, faz bem para a alma”.

Por isso, conta que suas milhares de idas ao Parque Nacional do Iguaçu misturam visitas profissionais e particulares. Essas últimas,  como uma moradora iguaçuense. Sempre que chegam conhecidos à sua casa, ela os leva passear nas Cataratas.

As Cataratas do Iguaçu ao anoitecer (Foto: Áurea Cunha)

 

“Quando cheguei aqui, ficava escandalizada com o fato de ter pessoas da cidade que não as conhecesse, e passei a levar gente para ver aquela maravilha”. Hoje, a guia de turismo, parece mais acostumada à realidade iguaçuense e diz não se escandalizar mais.

 

Huguette explica que trabalha com grupos de turistas franceses e, às vezes, conforme o número de visitantes possibilita, dispensa maior atenção pessoal ao espetáculo. “Se é um grupo de 40 pessoas, não vou olhar tanto as Cataratas, pois tenho que cuidar dos turistas. Mas lá tem uma coisa mágica, toda hora do dia tem um aspecto diferente. Há uma mudança constante, por causa da luz, do volume d’água, das estações.”

Por isso, não poupa o ensinamento de que o turista colha imagens com suas filmadoras e máquinas fotográficas, mas que não deixem de olhar e sentir a beleza do lugar. Ela relata que as reações de cada um, é diferente. “Tem tanta coisa e o gostoso é mostrar isso para as pessoas. Algumas chegam na frente das quedas e choram, outras não. Assistindo a isso, eu enriqueci muito aqui, em todos os sentidos.”

 

Ela também lista outras surpresas em cada visita. “Levei um ano para começar a desfrutar desses mistérios. Foi quando me costumei com o ambiente e passei  a observar muitas coisas, as aves, os bichos, a mata.

 

Huguette Girard se emociona e finaliza: “As Cataratas contribuíram com a minha sensibilização com a natureza. Eu penso que o ser humano se sensibiliza com a natureza primeiro pela beleza. É a única coisa gratuita que a gente não tem como pagar e que não pode colocar no bolso.”

E para quem acha banal visitar mais de uma vez as Cataratas, Huguette conta que todo dia é uma nova aventura. “Eu aprendi a olhar e a apreciar as coisas.”

Áurea Cunha é fotojornalista em Foz do Iguaçu. Em 2004, desenvolveu o projeto “Todas as Cores do Mundo”. O texto acima, inédito, foi escrito naquele ano e faz parte de uma coleção de crônicas baseadas nas entrevistas feitas com as mulheres fotografadas.
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