2010 – Unila: da ruptura à inclusão social

  –  Um depoimento de Lisete Barbosa  –


“Foi o ano mais importante da minha vida”, lembrei-me. Aos 28 anos, finalmente um horizonte novo se apresentava. Em 2010 o projeto Unila era apresentado a Foz do Iguaçu pelas páginas do jornal local. Naquele momento era como se estivesse rompendo a trajetória familiar camponesa, sem nunca antes ter acessado essa experiência revolucionária: a chegada ao ensino superior.
O significado da Unila na minha família, foi a ruptura com um tempo que a Universidade era para o filho do patrão. O máximo que se almejava até então era terminar o ensino médio e trabalhar, para fazer a roda capitalista girar. Onde o filho do patrão era doutor sem ter doutorado.
Todo mundo prega a mudança e o “ moderno”, mas quando a Unila se apresentou foi vista – e isso ainda povoa o imaginário – de algo fora do padrão dos “cidadãos de bem”. Inicialmente, mergulhada na felicidade de estar finalmente no ensino superior impedia de, ingenuamente, combater o preconceito que se acirrou entre alguns cidadãos. Fomos alvos de boatos os mais terríveis possíveis que, com certeza, o fizeram pela desinformação. Foi um festival de comentários doentios, “que os alunos eram privilegiados”, “que eram todos vagabundos”, “que trouxeram drogas e desordem”, “que eram mal apresentados”.
Quando me recordava que nunca a vida tinha sido generosa comigo, que tive meu primeiro emprego aos 11 anos de idade em uma pequena fábrica, que nunca usei drogas mas convivia diariamente com elas na periferia, e nunca tinha conseguido comprar uma roupa nova – esses comentários doentios me causava extrema raiva e indignação.
Me formei em Ciências Econômicas na Unila, com muito esforço e todos os “privilégios”.  SIM, privilégios, porque para quem não tem nada um pouco que se consegue, transforma-se em dobro. Quando me dei conta da proporção desse projeto para Foz do Iguaçu, não senti mais raiva desses comentários doentios. E passei a entender que fazíamos parte de um projeto de nação, de um novo pensamento latino americano e que as mutações desses tempos que foi de ruptura para todos os envolvidos, deveriam passar pela destruição do que viera antes – fossem o que fossem, tabus, resistências, preconceitos.
Mas também lembrar os legados da emoção de viver a Unila. Esse encontro com outras culturas, permitiu juntar e costurar essa colcha de retalhos que é nossa América Latina. Somos diferentes mas temos algo em comum, somos povos nascidos da desigualdade e escravidão. Trocar experiências e conhecimentos com estrangeiros pela primeira vez, foi para mim, paradigmático. O processo de entrada no ensino superior já é, em sua essência transformador, mas com certeza essa experiência latino-americana é libertador.
Conviver com pessoas da toda a América Latina e Caribe, seus comportamentos e sua comida, conhecer a linguagem, a arte e o costume de cada um é a fascinante reconstrução de nossa verdadeira história. Passei a enxergar e nossos vizinhos paraguaios, argentinos e uruguaios como irmãos. Aprendi a não encarar o diferente com intolerância ou medo, mas profundo interesse no outro.
Aos alunos que já se formaram, ao jovens que estão na luta e aos que ainda vão passar pela Universidade da Integração Latino Americana (UNILA), eu conclamo:  precisamos defender o acesso ao ensino gratuito para as classes populares e essa integração que produz riqueza cultural para o Brasil e nossos irmãos.
#FICAUNILA
 
Leia também: UFOPr,A Unila vai para o espaço?
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Lisete Barbosa é economista formada na Unila. Filha de camponeses no Sul, trabalhou em fábricas ainda criança e quando adulta em panificação. Veio a Foz do Iguaçu para estudar e nela fixou residência depois de formada. Na cidade ela participa de várias atividades de voluntariado em benefício das classes populares.

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