Na contramão

  –  Ministro da Cultura ataca escritor durante entrega do Prêmio Camões e é vaiado  –

Freire é vaiado em solenidade de premiação. (Foto: W.Soares/CC)

O escritor brasileiro Raduan Nassar recebeu o Prêmio Camões 2016, em solenidade nesta sexta-feira, 17, no Museu Lasar Segall, em São Paulo. Considerado um dos grandes nomes das letras, Nassar é autor de Lavoura arcaica, entre outros livros. A honraria, concedida anualmente pelos governos do Brasil e Portugal, entrega 100 mil euros em premiação a destaques da literatura em língua portuguesa.
O evento, que ocorreu com a presença de integrantes dos governos brasileiro e português, além de escritores, artistas e intelectuais convidados de Raduan Nassar, tinha tudo para ser mais uma cerimônia para valorizar a literatura e a arte do país. Entretanto, o discurso do homenageado referindo-se ao Governo Temer como golpista e “repressor”, provocou a ira do ministro da Cultura, Roberto Freire.
Ignorando o protocolo e seu pronunciamento escrito, Freire retrucou Raduan Nassar de forma hostil, dizendo “lamentar” a manifestação do escritor, que deveria, segundo o ministro, retratar a sua experiência sobre “um efetivo golpe nos anos 60”. “Quem dá prêmio a adversário político não é a ditadura”, completou Roberto Freire. Nassar foi contemplado com o Camões em maio do ano passado, ainda sob o governo de Dilma Roussef.

O público presente reagiu com intervenções em defesa de Raduan Nassar e vaias ao ministro, último orador do evento, diferente das solenidades anteriores em que o designado com a chancela literária é o última a falar.  Mesmo depois do final da insólita cerimônia, Roberto Freire continuou o bate-boca com o público, enquanto os convidados, entre eles o embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral, e Helena Severo, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, retiravam-se, envergonhados.
As informações são de Maurício Meireles, da Folha de São Paulo. Leia a reportagem.
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A seguir, a íntegra do discurso de Raduan Nassar:

“Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral. Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício. Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall. Saudações a todos os convidados.
Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua. Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.
Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.
Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.
Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.
Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.
Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim.
Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro. Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal. Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”.
E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas.
É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.
O golpe estava consumado!
Não há como ficar calado.
Obrigado”

Fontes: FolhaSPaulo e CCapital.

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