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AUE LITERÁRIO
REVISTA ESCRITA
SORTEIE UM HAIKAI
DE LÁ & DE CÁ

A face doce da miscigenação

Um poema de Lisete Barbosa

Por qual razão, quebramos a bússola?
Por qual motivo, erramos o caminho?
Não achamos o caminho, porquanto vagamos a esmo.
Por qual motivo, inverteram os polos?
Um caminho de luta em vão?
Por qual motivo que saibamos da proximidade do algoz,
no entanto o ignoramos o passo que nos separa.
Do século XV a XXI a distância não aumenta
Na pequena distância, nasce a miscigenação,
Tomada a força, sob o porrete, farrapos e migalhas de pão,
oh, doce miscigenação!
Música, dança, futebol e vida praiana
Manto encobridor do regime cruel
De uma história de faz de conta, mistificação conveniente
Os originários foram os primeiros:
servindo, quebrando pedras, produzindo o ouro doce no latifúndio
Em menos de cem anos a terra encobria dois milhões de almas
Depois a maior imigração da história, na Angola rumo a travessia
Uma plantação e o exército de formigas trabalhadoras,
reduzidas a um punhado em uma semana
O percurso é longo, mas o algoz está a nos observar a um passo
O chicote de ontem, se embrenhou na complexidade da urbanização
O exército das formigas de ontem,
elas continuam seguindo enfileiradas, produzindo para o império.

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Lisete Barbosa, economista e mestranda em Integração da América da Latina.