Na estrada

  –  “À gume de conclusão”.  Um texto de Rennata Orrico  –

Ferrovia cruza área de preservação da Mata Atlântica, na Serra do Mar, nas cercanias de Morretes, Pr.

Quando se muda um ponto, se muda um parágrafo. Se muda o título que se muda o tema e por si, muda todo o texto. Se reescreve. Essas são as facetas da escrita. E nossas experiências de vida também! Seja ela a vida  profissional ou a vida real. É a vida! Algo que também se renova, por isso, não tenho o sentimento de pecar nas impressões que registro aqui.
Começo este gume a pensar nas didáticas, e dizer que mais vale a postura do professor do que elas. Os alunos parecem ter a necessidade de se enxergarem em nós. E fazer com que eles nos enxerguem e se identifiquem, é o grande desafio. Como já dizia Paiva (*), nossos alunos das “escolas de pobres”, precisam antes de tudo trabalhar sua autoestima. Antes disso, parece um mestiere impossível alcançá-los com a importância dos conteúdos, mesmo os relacionando com o dia a dia que suponhamos ter. Isso se dá até mesmo naquelas que já introduziram a “cultura da rua”. É estreita a abertura que as famílias dão para o que a escola quer ensinar de conhecimentos próprios para se viver na ampla sociedade. Digo famílias, porque é claro a importância que a família dá aos estudos. Grande parte vem a nós sem educação social alguma. Do jeito que é o trato em casa, reproduz na escola. E quando repreendidos, a família reprime a escola por repreendê-los. Raros são os pais que estão na escola e se preocupam com os filhos.
Já faz algum tempo que venho aceitando cada vez mais a hipótese de que o maior patrimônio da humanidade continua sendo nós mesmos. Faça um teste. Questione-se: Que sentido há, quando se retorna a um lugar e não encontrar ali nenhum remanescente? E deparar apenas com ruínas? Que sentindo você ver e, que sentimento te dá?
Por este viés, ouso dizer que estamos muito além de que nossas obras e de nossas descobertas. Estamos muito além de tudo. Mesmo que ainda o tempo corroa com nossas memórias, com nossas vidas, ainda assim, somos o maior patrimônio. Somos os que portam a vida, que damos e recebemos o sentido das coisas, que despertamos para o que não faz sentido. Somos os humanos. Os que lutam, brigam e amam uma consciência, mesmo que criada por um só de nós, ou com aquelas que todos a faz. Que essência tem os livros se os olhos não pesarem sobre eles com sentimento? Que sentindo tem a espera do vazio por ser preenchido, se não for nós a cultivá-lo para o momento oportuno? E colocar ali, o que é relevante para nós, nossas emoções. A nossa mente pede para viver, as nossas lembranças “forçam a barra”. Por mais que estejam esclarecidas, não se importam se são presentes ou passado. O futuro é o que menos importa. O futuro serve apenas como espelho a dizer: Olhe, venha. É possível sim! Como a quem te dá estímulos.
Estas crianças, assim como nós, precisam se conhecer. Se conhecer é importante para reconhecer o que se estuda. Precisamos ter a experiência particular de sermos os primeiros a nos ver, perceber. Acho que é por isso que Morin menciona tantas vezes a leitura dos romances. Porque neles reconhecemos o que sentimos, e o pouco que somos nas histórias escritas de outrem. Também acho que é por isso que eles sobrevivem até hoje. Os romances e a educação, são do humano; assim, inquietantes, desafiadores e ricos em experiências de vida.
Tenho para essas minhas reflexões um parador, que foi o curso de especialização na formação continuada de Professores. Ali, pude me encontrar nas falas e discuti-las, era o “aprender vivências”. Os conteúdos trabalhados eram mastigados no sentindo de serem ponderados.
A pergunta que me acompanhou durante todo esse período foi: O que uma egressa precisa para se situar no turbilhão que é a escola? – ela me permitiu aluir do medo de não conseguir. Alguém me disse que as perguntas muitas vezes são mais importantes que as respostas. E muitas delas te acompanharão por toda a vida. O importante é que elas estejam contigo.
Veja a relevância que é dar significado a tudo que fazemos. Com essa pergunta mais os desafios do dia a dia, senti-me motivada as questões que eram apresentadas no curso. No que mais me apropriei foi o Módulo de Diversidade e Inclusão. As mediadoras tornaram obra simples a motivação, inspirando superações as batalhas que me seguiam nas escolas.
Neste mestiere, considero que um docente pode ser comparado as geleiras da Antártida. Este extremo do planeta é considerado como um termômetro e é capaz de medir o grau de poluição do mundo. No caso da Educação, é na sala de aula onde o professor consegue medir alguns fenômenos sociais que estão sendo vivenciados no cotidiano das famílias. É daí que vem à importância de preocupar-se com esses jovens a quem estamos formando. Atentar-se apenas para as pesquisas e remediar-se com ações individuais, é decidir dá continuidade aos caos. Trabalhar no coletivo pode ser difícil, mas quando se consegue, é forte o bastante para romper essas estruturas.
Vou além dos três, que sugere o educador José Pacheco. Sugiro todos os membros da escola a se envolverem no processo de nova emancipação da escola na sua comunidade. E se acaso não existir por parte dos discentes e seus representantes o interesse, que faça assim mesmo a Direção com o apoio dos professores. A escola precisa se levantar, ser o motivo pelo qual nasceu e não vítima de uma sociedade marginalizada.

Obs.: Paiva, Vanilda.
Mestiere (relativo à função)
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RENNATA ORRICO é professora do ensino Fundamental II. Licenciada em Ciências. Foi professora na Escola Estadual Indígena Emylia Jera Potã, dentro da Mata Atlântica, na divisa entre os municípios de Morretes e São José dos Pinhais. O presente texto é uma reflexão sobre aspectos educacionais, baseados nessa experiência.

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