A luz do som

  –  Texto de Valentina Virgínio, celebrando três anos da criação do Maracatu Alvorada Nova  –  

Capa da Escrita 44: "Alvorada Nova", maracatu na madrugada iguaçuense. Foto: Valentina Virginio
Capa da Escrita 44: “Alvorada Nova”, maracatu na madrugada iguaçuense. Foto: Valentina Virginio

O “Alvorada” faz brilhar os olhos por onde anda. Ao começar a contar sua história que hoje vivencio, lembro que desde o ínicio trilha seus caminhos com uma ideia humilde mas sustentada na beleza da expressão dos artistas que somos. Nem mesmo o Alisson Capelari, seu idealizador, motivado a trazer para a fronteira algo que lhe fez brilhar os olhos, poderia imaginar a família que faria nascer e crescer com o Alvorada Nova.
Há três anos, ainda com poucas batidas, mas com seu destino traçado, o coração do maracatu tri-fronteiriço começou a pulsar. Foi no compasso de alfaias confeccionadas por um grupo ainda sem nome e pouco ritmo que ele nasceu. E nasceu na alvorada alaranjada dos dias iguaçuenses. Com o mais apertado dos abraços, junto a uma onda de acontecimentos, floresceu para mim aqui na cidade um dos mais lindos movimentos brasileiros.
Não podia mesmo ser diferente. Gente de todo lado se encantou a descobrir o novo, num som diferente, uma espécie mesmo de manhã surgindo. Era o “Alvorada”, onde as histórias que se cruzam são parecidas nos detalhes das vidas. Histórias que caberiam num verdadeiro álbum de família. É assim que eu penso e é a descrição perfeita: com o som, nasceu uma espécie de perfeita família. Afinal, todos por aqui se intitulam assim, irmãos, parentes. E por mais que as opiniões se contrariem, a história nos une.
De diferentes formas, cada um se cativou. Tudo ao jeito muito particular de cada um. Nos papos sobre como tudo começou em cada integrante, pode-se ouvir dos mais tímidos relatos de aproximação aos mais ousados. Alguns, mais sortudos, tiveram em casos de amor e aniversários o empurrãozinho de que precisavam. Outros, botaram a faca entre os dentes e pediram licença na roda. E tem até os mais despretensiosos, que viram no batuque uma experiência a mais. A todos, o Alvorada laçou com seu encanto. Assim, juntos, sem querer querendo, passamos a construir algo que hoje está em nossa pele.
Em síntese, a energia trocada fez com que em três anos maturamos e como grupo estamos sabendo da responsabilidade de integrar e representar essa vertente da cultura brasileira, que é o Maracatu.
alvorada nova1Os três anos do Maracatu Alvorada Nova eu comemoro junto ao meu berço, minha terra natal. Foz do Iguaçu é merecedora de um grupo de astral leve , com alma profunda e original, como é seu povo e território, que sempre ensina outra Geografia. Que a cidade que tanto festejo, celebre o fato de que foi contemplada com um grupo de beleza única. E que a gente perceba que dentro dela, ele não tinha mesmo lugar melhor para florecer. Afinal, o Teatro Barracão é um lugar encantado e veterano em dar palco para os bons frutos. A sensibilidade do lugar é intensa e os que por ali passam são cativados com tamanha energia.
Se digo isso para os vizinhos de minha cidade, também confesso que infinitamente presenteada fui eu, pois neste grupo vejo se encaminhar os frutos de uma herança sem igual. Assim como o Teatro, o Maracatu é uma oportunidade de me aprofundar em mim mesmo. Conhecer novas vertentes e me arriscar ao autoconhecimento. Oportunidade de mergulhar ainda mais nos delírios da Arte, diga-se de passagem, um feliz destino. Foi essa certeza, no período da vida em que mais dúvidas aparecem, que o Maracatu Alvorada Nova me trouxe. Com sinceras respostas, uniu tudo o que já tinha vivido com aquilo que nem poderia imaginar.
Ao me ouvir no meio das alfaias, além das respostas, encontrei a música, amigos, o amor e a certeza de que é na arte que está contemplado o bonito da vida. Hoje me sinto muito mais forte, munida de muito asxé e energia. No Alvorada Nova, sou integrante de uma família legitimamente fronteiriça, unida e colorida. Com ela faço uma nova manhã acontecer.


Valentina Rocha Virgínio é atriz e compõe o grupo de Maracatu “Alvorada Nova, em Foz do Iguaçu, Pr. Texto publicado na edição 44 da revista Escrita.