Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on print
Print

A mulher negra e o trabalho braçal

Um artigo de Larissa Gouveia (*).
Reproduzido da página Coletivo Ana Montenegro

A sociedade brasileira, desde a invasão europeia juntamente com a colonização, carrega nas costas um longo processo de extermínio indígena e negro. Entretanto, é essencial explicitar que quando falamos sobre extermínio nos referimos a um projeto genocida que não tinha outro lugar, além da sarjeta, para a população que sofre racismo. A primeira classe trabalhadora no Brasil tinha cor e fazia parte de uma classe que historicamente teve direitos, que deveriam ser básicos, negados. Falaremos um pouco sobre o papel social que mulheres negras ocuparam socialmente e como a elas foi delegado o trabalho manual-braçal.

Primeiro, é importante enfatizar que o sistema escravagista deliberou papéis diferentes para a mulher que pertencia à classe e à cor diferentes. Em ”Mulheres, Raça e Classe”, Angela Davis (2013) apresenta algumas questões referentes ao que denomina a criação de bases para uma ‘’nova natureza feminina’’. O ideal de feminilidade, fragilidade e de maternidade não se encaixava em mulheres negras. Estas eram vistas apenas como trabalhadoras e procriadoras capazes de gestar e parir mais força de trabalho, vulgo propriedade, para o comércio de escravizados que sustentou esse sistema por séculos.

Além de trabalhadoras e procriadoras, elas também eram vistas como um pedaço de carne rentável que poderia e era explorado para satisfazer e, não raras vezes, introduzir sexualmente os filhos dos senhores de engenho, bem como trabalhando nas cidades como ganhadeiras. Eram uma propriedade e ao seu proprietário era permitido fazer o que bem quisesse. Também é válido citar um ditado popular que estereotipava o ideal feminino, determinando o papel social que cada mulher deveria ocupar. “Negra no fogão, mulata na cama, branca no altar”.*

Segundo Pereira (2011), após a ”libertação”, a incorporação da mão-de-obra negra liberta no mundo do trabalho assalariado se deu majoritariamente pelo trabalho doméstico, continuando a carregar características próximas as raízes estruturais do sistema escravista. A mulher negra permaneceu ocupando os cargos de limpeza, e outras funções historicamente subalternizadas. Preenchendo a última posição da pirâmide social. ‘’Ela é duplamente discriminada: enquanto mulher e enquanto negra. De acordo com o modelo oficial, cabem-lhe, fundamentalmente dois papéis: o de empregada doméstica e o de objeto sexual’’. (SAFFIOTI, 1987, p. 52)

Em 2017, o Brasil lidera o ranking de país com mais empregados domésticos do mundo, com 7, 2 milhões de trabalhadores empregados nesse cargo, e grande parte deles é composta majoritariamente por mulheres (92%), em maioria, mulheres negras. Essa é a ocupação de 5,9% das trabalhadoras brasileiras. Muitas delas são mães, responsáveis pelo sustento do lar, e até pouco tempo atrás, legalmente sem direito a descanso em nenhum dia da semana, mês e ano. Tendo que se submeter ao trabalho sem carteira assinada, sem as garantias de direitos trabalhistas e, como mulher, ficando vulnerável sem proteção em caso de gravidez.

Em 2015, com a regulamentação da PEC das domésticas, direitos básicos finalmente foram legalmente concedidos, como: intervalo de almoço, pagamento de adicional noturno, redução da carga horária nos finais de semana e recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) das trabalhadoras. Após os últimos golpes contra a classe trabalhadora, como a Reforma Trabalhista e a ‘’PEC da morte’’ (congelamento de gastos e privatização dos serviços públicos), observamos que a parcela da classe trabalhadora que continua sendo atingida mais duramente pelos golpes é aquela que está na base.

Saúde, educação, segurança, lazer, transporte público de qualidade, descanso e uma aposentadoria antes da morte, são premissas que a cada dia, com o acirramento da luta de classes, parecem distantes da realidade que vivenciamos. Sendo assim, lutar para sobreviver não é uma opção. É uma sentença que nossos (as) avós, pais, filhos (as) e provavelmente netos (as) irão carregar. Se organizar lutando por uma sociedade mais justa e igualitária para quem produz é a única saída. À esquerda, unificando com quem busca os mesmos ideais de nossa classe.

___________________________
Reproduzido da página
Coletivo Ana Montenegro

(*)Larissa Gouveia é pedagoga, militante do PCB e do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro.
**Segundo Chiavenato (2012), as escravizadas de ganho trabalhavam com o pequeno comércio e também eram prostituídas nas cidades no inicio da adolescência. Davam a seus senhores uma quantia previamente estabelecida e o que excedesse o valor combinado era apropriado por ela.
*** Provérbio popular no século XIX, memorizado no livro de Gilberto Freyre ”Casa-Grande e Senzala”.

Arquivos

Categorias

Meta