A rebelião cabeça de bagre

Um conto de José Maschio

Dizem. E o que dizem é lá na Venda dos Pretos. Dizem, os mais recatados e sérios, que o Moacir exagera. É um exagerado. Isso é o que dizem eles. Já os mais afoitos, ou mais alcoolizados. E na Venda dos Pretos não se bebe socialmente nunca. Esses dizem, Moacir é um tremendo de um mentiroso.

Exagerado ou mentiroso, Moacir está nem aí para os adjetivos. Quer é contar sua história. E tem todo direito. Afinal o país vive um amplo espaço para a liberdade de expressão. Nem parece com aqueles tempos em que o fascismo ameaçava a todos.

Moacir que contar sua história. Nesse momento este escriba pede licença ao leitor para sair de cena. Vai deixar Moacir falar. Conte ele sua estória ou história. Mesmo porque está ele, e este escriba, em terreno neutro. Para quem não sabe, convém esclarecer. A Venda dos Pretos é terreno neutro.

A Venda dos Pretos, patrimônio cultural de Londrina, fica exatamente no limite entre os patrimônios Espírito Santo e Regina. É bom explicar, patrimônio é aquela aglomeração rural que não consegue ser distrito ou mesmo bairro. Portanto, a Venda dos Pretos é uma Suíça em pleno solo vermelho.

Hora da fala de Moacir. Fala Moacir. Eu sempre fui cabeça de bagre. Ruim de técnica, habilidade e tática. Esses, os três princípios básicos do futebol. Logo, eu não tinha nenhum. Mas corria pra caralho. Ninguém mais rápido que eu. Só que cabeça de bagre. De um tempo que cabeça-de-bagre até levava hífen. Só para reforçar.

Mas aí veio o acordo ortográfico de 1990 e fiquei sem hífen. Mas isso é de menos. O de mais é que, mesmo sem hífen, continuei cabeça de bagre. Isso lá pelo final dos anos 70 começo de 80. O Patrimônio Regina tinha um puta de um time. E era um time parelho. Titulares e aspirantes no mesmo nível.

Vez em quando eu era levado para os titulares. Ponta direita. Correria só.
Mas não podia lançar a bola direta. Tinha que ser na disputa com o zagueiro adversário. Caso viesse limpa, eu batia de canela, me perdia. Tinha que ser bola lá na frente, quase mais para o zagueiro. Aí eu disputava, corria e ganhava.

O problema é que o time tinha um cara diferente. O Nilsinho. O Nilsinho Rodela. O cara sabia tudo de técnica e habilidade no futebol. Era tipo um Falcão, aquele mesmo que virou rei de Roma. Um craque. O problema nosso e do Nilsinho era que ele era craque. No meio de um bando de cabeças de bagre.

E a coisa rolava assim. Rodela recebia a bola na meiúca, rodeava um, dois até três adversários. Levantava a cabeça e, elegância suprema, metia ela, a bola, nos pés do Esparrela, o centroavante. Ou nos meus pés, pela direita. E sempre dava merda. Eu e o Esparrela nunca conseguíamos. Faltava dialética nisso de jogar com o Nilsinho Rodela.

Dialética à parte foi em um jogo, clássico, que decidi. O embate era Regina contra o Espírito Santo. E nisso de disputa regional a gente não podia, nunca, perder. Era tipo Fla x Flu da zona rural de Londrina. Eu não fui escalado para o aspirante. Logo seria titular. Foi aí que decidi.

Quando me deram a camisa sete para o jogo principal, chamei os camaradas. Avisei. Hoje eu tiro o Rodela do jogo. Os camaradas, cabeças de bagre como eu, concordaram. Mas fui honesto. Cheguei ao Rodela e avisei. Nilsinho, se você ficar a jogar esse futebol clássico, lindo e que a gente não entende te tiro do jogo.

E aconteceu. O Espírito Santo no ataque. Surge o Rodela. Desarma o adversário. Rodeia de uma lado e de outro, sai de três. O quarto era eu. Fui de fianco, no tornozelo. Arrebentei com o Rodela. Quebrei o tornozelo do infeliz. Acho que fui o primeiro cara, na história do futebol varzeano de Londrina, a ser expulso. Por atingir um companheiro de time. Nunca mais me aceitaram no Regina. Nunca mais joguei bola.

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José Maschio é escritor e jornalista em Londrina, PR.