Águas

  –  Um poema de Manoel de Barros. Uma fotografia de Áurea Cunha  –

“Rio Paraná”, foto de Áurea Cunha

Desde o começo dos tempos águas e chão se amam. Eles se entram amorosamente E se fecundam. Nascem formas rudimentares de seres e de plantas Filhos dessa fecundação. Nascem peixes para habitar os rios E nascem pássaros para habitar as árvores. Águas ainda ajudam na formação das conchas e dos caranguejos. As águas são a epifania da Natureza. Agora penso nas águas do Pantanal Nos nossos rios infantis Que ainda procuram declives para correr. Porque as águas deste lugar ainda são espraiadas para o alvoroço dos pássaros. Prezo os espraiados destas águas com as suas beijadas garças. Nossos rios precisam de idade ainda para formar os seus barrancos Para pousar em seus leitos. Penso com humildade que fui convidado para o banquete destas águas. Porque sou de bugre. Porque sou de brejo. Acho que as águas iniciam os pássaros Acho que as águas iniciam as árvores e os peixes E acho que as águas iniciam os homens. Nos iniciam. E nos alimentam e nos dessedentam. Louvo esta fonte de todos os seres, de todas as plantas, de todas as pedras. Louvo as natências do homem do Pantanal. Todos somos devedores destas águas. Somos todos começos de brejos e de rãs. E a fala dos nossos vaqueiros carrega murmúrios destas águas. Parece que a fala de nossos vaqueiros tem consoantes líquidas E carrega de umidez as suas palavras. Penso que os homens deste lugar são a continuação destas águas.
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Manoel de Barros, poeta brasileiro (1916-2014). Áurea Cunha, fotojornalista em Foz do Iguaçu, Pr.

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