Alegoria de uma íntima caverna

  –  Um conto de Mirian Takahashi  –


E não estava mais só. Frente a frente, do lado esquerdo da cama, na parede cinza-pálido. Em movimentos sincrônicos sentaram-se para conversar.
Conversaram as chaturas e as risadas do cotidiano moroso de suas vidas. Também sobre o passado e sobre o futuro.
Não arriscaram-se a falar do agora, pois o tempo é demasiadamente breve. Diziam: “cada milionésimo de segundo é um passado, não há velocidade suficiente para dissertar o presente.”
Ouviram música. Musicas para ler, musicas para sentir e algumas inclusive só para cantar como aquelas de ônibus de excursão. Tudo era válido para se distraírem.
Poemas foram lembrados. Os mais incansáveis, lidos repetidas vezes.
Dos poemas foram até as fervorosas discussões sobre política e sociedade.
Apostavam na possibilidade de o homem não mais necessitar explorar o outro. Ah! Na sociedade onde os homens satisfariam suas necessidades materiais sem a pensa de subtraírem o tempo de crescerem o “espírito”, de amarem o céu e as estrelas, para enfim gozarem da liberdade perpetuando-a dia pós dia!
Risos ao âmago da noite, a madrugada insistia em não florescer dia. A caixa de fotografias aberta e ai sim risos e mais risos: “como éramos!”, “olhe o que fazíamos!”.
Não sentiam vergonha alguma das bizarrices da infância e da adolescência, pois entendiam que essas fases eram necessárias para que soubessem, quando na fase adulta, o significado da palavra saudade. Sentimentozinho que maltrata, mas não ruim,  e só sentido por aquilo que um dia foi bom.
Bem lembraram que é a ausência, por vezes acompanhando a saudade, que congela os sentidos e deixa a vida inerte.
Do lado esquerdo da cama, também choraram sobre as incertezas futuras, sobre o medo do novo. O velho é sempre o confortável, mas… é velho! Assim temiam o inevitável novo, dos dias que se seguiam, dos anos que corriam (sim, os dias tendem a se arrastarem e os anos a correrem).
Ao falarem dos amores vividos, daqueles amores amoras que mancham a alma, eis a mãe na porta:
“Filho, hora de dormir… apague as luzes”.
Eis um exclamo interno, de rebentar as fibras: “BARALHO!!! PUTA QUE ESPIRROU!!!”
Virou-se para o lado da cama e permaneceu só.
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Mirian Takahashi é pedagoga da rede pública de ensino. O presente texto foi publicado na revista Escrita 7.

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