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AUE LITERÁRIO
REVISTA ESCRITA
SORTEIE UM HAIKAI
DE LÁ & DE CÁ

Aspas de "Pepe" Mujica:

“A felicidade é se garantir tempo para cultivar os afetos. A felicidade é também um pouco de solidariedade”

José “Pepe” Mujica participou como convidado alguns dias atrás de um evento realizado por estudantes no Colégio Nacional de Buenos Aires, na Argentina. Transcrevemos o original em espanhol e fizemos uma tradução livre para o português do discurso completo do ex-presidente uruguaio, publicado pelo site argentino “La Tinta”.

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Depoimento traduzido de Pepe Mujica, em Buenos Aires, :

“Cada um da maioria aqui poderia ser meus netos, mas na idade de vocês é natural que os seres humanos germinem utopias, tenham sonhos de um mundo melhor. O desafio que enfrentarão ao longo da vida é como manter o fogo sagrado quando a pele se enruga, quando as pernas desaceleram,quando a vida o enche de responsabilidades e desafios, quando todo mês você precise pagar contas, quando precisar tornar-se hidropônico para trabalhar em uma multinacional e quando olhar para o curso de sua vida, o fio dos seus sonhos. Porque a história humana é um cemitério de utopias, mas graças a elas caminhamos.Porque sempre temos muito mais capacidade de sonhar, do que a capacidade que temos que realizar. Mas como seria viver sem sonhos? Como seria ser um tijolo, como uma pedra e não ter sentimentos, emoções e compromissos?

Meninos, o único milagre que está acima da terra para cada um de vocês é ter nascido, isso é tão cotidiano para cada um que não se percebe. Havia quarenta milhões de chances de que tocasse a outro e tocou a você, mas a vida vai mais rápido do que parece e essa peculiaridade não é apenas humana, é comum no mundo vivo. O mundo dos vivos tem algo diferente do mundo inerte, tem sentimentos e emoções, porque uma tartaruga que põe ovos sente emoções, assim como uma galinha que cuida de sua ninhada ou um vegetal que se reproduz e, antes de morrer, é semente para ser semeada, essa é a sua maneira de sentir. A diferença humana é que temos consciência; além de viver, podemos refletir a partir de nossa consciência. E já que lhe coube nascer, a pergunta é: o que você faz da sua vida? Se sua vida vai ser a de um pagador de contas que confunde estar com ter e o mercado acabar organizando seu coração, relacionamentos humanos e tudo mais, ou se para sua vida você é capaz de fornecer conteúdo e ser, em parte, autor do rumo da mesma.

Estamos aqui pela solidariedade de gerações que possibilitou um acúmulo de conhecimento transmitido de geração em geração. Outras virão e vocês terão outros desafios, grandes desafios. Estamos organizando uma frigideira gigantesca neste mundo para fritar coisas vivas e você terá que lutar contra o egoísmo que nos ameaça de um holocausto ecológico. Vocês são argentinos em primeiro lugar, mas em segundo lugar são latino-americanos e são irmãos de todas as pessoas pobres que estão na América. Têm a vida pela frente, não traiam este belo estágio de sua vida, apliquem ou transformem conscientemente os momentos e prolonguem essa idade bonita que têm para viver. E isso vai depender de algo chamado vontade.

A vida militante não é um prêmio, é uma aventura, é ter motivos para viver e não viver pelo simples fato de ter nascido. Ser militante significa dedicar uma parte importante da nossa vida ao destino dos outros, sob a utopia e o sonho de que você pode construir um mundo um pouco melhor do que aquele que nos tocou no nascimento. Mas o que emocionante e muito importante, o cerne da questão, é manter o fogo sagrado dessa aventura
ao longo da vida.

Porque temos que viver em um sistema que gera uma cultura na qual estamos imersos e precisa nos tornar funcionais para sermos compradores compulsivos, porque senão tudo está bloqueado. Nós tendemos a confundir felicidade com ter novos objetos e, às vezes, abandonamos as coisas mais sagradas que são sempre as mesmas e poucas que nos cercam. Ou você aprende a ser feliz com as coisas elementares da vida ou nunca será feliz.

O que isso tem a ver? Eu sei que no meu discurso há um pouco de velho, aparente discurseira antiga. Mas rapazes, o desafio que eles enfrentarão é precisamente o vórtice da cultura que gerou nosso tempo e devemos pensar em entender que o que se pode chamar de felicidade significa garantir tempo para cultivar os afetos, que é a diferença que a vida e os sentimentos têm. Trabalhar, temos de trabalhar, porque quem não trabalha está vivendo à custa de alguém que trabalha, não deve ser parasita, mas a vida não é apenas trabalho, devemos garantir tempo para as relações humanas, filhos, amor, aqueles que virão, porque a vida está indo embora. Não se deixe perder a liberdade, porque você é livre apenas quando passa um tempo na sua vida naquelas coisas que o motivam sem prejudicar a outro. A felicidade também é um pouco de solidariedade.

Rapazes, não sei a direção que a Argentina vai seguir, sei que sairá da angústia que tiver, saiu mil vezes. É um país muito rico e talvez seu infortúnio esteja aí, no excesso de riqueza que possui. Vocês são responsáveis pelo que virá, mas gastem suas existências em favor da causa humana, não se esqueçam dos milhares que não podem vir para a universidade, daqueles que ainda se amontoam na solidão dos campos, montanhas, nos rincões. Ser universidade não é um privilégio, é uma obrigação, a de servir o seu povo e não oprimi-lo.

Portanto, boa sorte e até sempre.”

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Depoimento de Pepe Mujica, em espanhol.

“La mayoría acá podrían ser mis nietos, pero a la edad de ustedes es natural que los seres humanos germinen utopías, tengan sueños de un mundo mejor. El desafío que van a enfrentar a lo largo de la vida es cómo mantener ese fuego sagrado cuando la piel se te arruga, cuando las patas se te enlentecen, cuando la vida te llena de responsabilidades y de desafíos, cuando cada fin de mes hay que pagar cuentas, cuando tienes que volverte hidropésico trabajando para una multinacional y cuando miras el transcurso de tu vida, la hilacha de tus sueños. Porque la historia humana es un cementerio de utopías, pero gracias a ello vamos andando. Porque siempre tenemos mucha mas capacidad de soñar, que la capacidad que tenemos de concretar. ¿Pero qué sería el vivir sin sueños? ¿Qué sería ser como un ladrillo, como una roca y no tener sentires, emociones y compromisos?

Muchachos, el único milagro que hay arriba de la tierra para cada uno de ustedes es haber nacido, esto es tan cotidiano para cada uno que no se dan cuenta. Había cuarenta millones de probabilidades de que le tocara a otro y te toco a ti, pero la vida se va más rápido de lo que parece y esa peculiaridad no es sólo humana, es común del mundo vivo. El mundo vivo tiene una cosa distinta al mundo inerte, tiene sentires y emociones, porque una tortuga que pone huevos siente emociones, al igual que una gallina que cuida a sus pollos, un yuyo que se reproduce y antes de morir es semilla para sembrarse, esa es su manera de sentir. La diferencia humana es que tenemos conciencia, además de vivir podemos reflejarnos en una conciencia, y ya que te tocó nacer la pregunta es: ¿qué haces de tu vida? Si tu vida va a ser la de un sujeto pagador de cuentas que confunde ser con tener y el mercado te termina organizando el corazón, las relaciones humanas y todo lo demás o si a tu vida sos capaz de darle un contenido y ser en parte autor del rumbo de la misma.

Estamos acá por la solidaridad de generaciones que hicieron posible una acumulación de conocimientos que se transmitieron de generación en generación. Vendrán otras y ustedes van a tener otros desafíos, grandes desafíos. Estamos organizando un gigantesco sartén en este mundo para freir las cosas vivas y ustedes tendrán que pelear contra ese egoísmo que nos amenaza de un holocausto ecológico. Ustedes son argentinos en primer término, pero en segundo término son latinoamericanos y son hermanos de todos los pueblos pobres que están en América. Tienen la vida por delante, no traicionen esta hermosa etapa de vuestra vida, apliquen o transformen conscientemente los momentos y prolonguen esta edad hermosa que les toca vivir. Y eso va a depender de una cosa que se llama la voluntad.

La vida militante, no es un premio es una aventura, pero es tener causa para vivir y no vivir por el mero hecho de haber nacido. Ser militante significa dedicar una parte importante de nuestra vida a la suerte de los demás, bajo la utopía y el sueño de que se puede construir un mundo un poco mejor que aquel que nos tocó al nacer. Pero eso que es emotivo y muy importante, el quid de la cuestión es mantener el fuego sagrado de esa aventura a lo largo de la vida.

Porque nos toca vivir en un sistema que genera una cultura en la cual estamos inmersos y necesita hacernos funcionales a ser compradores compulsivos, porque si no todo se tranca. Tendemos a confundir felicidad con tener objetos nuevos y a veces abandonamos las cosas más sagradas que son siempre las mismas y pocas que nos rodean. O aprendes a ser feliz con las cosas elementales de la vida o no serás nunca feliz.

¿Qué tiene que ver esto? Sé que en mi discurso hay un poco de viejo vizcacha. Pero gurises, el desafío que van a enfrentar es precisamente la vorágine de la cultura que ha generado nuestro tiempo y hay que pensar en entender que eso que se puede llamar felicidad significa garantizarse tiempo para cultivar los afectos, que es la diferencia que tiene la vida y los sentires. Trabajar hay que trabajar, porque el que no trabaja esta viviendo a costilla de alguno que sí lo hace, no se debe ser parásito, pero la vida no es solo trabajar, hay que asegurarse tiempo para las relaciones humanas, los hijos, el amor, los que van a venir, porque la vida se te va. No se dejen robar la libertad, porque eres libre solo cuando gastas tiempo de tu vida en aquellas cosas que te motivan sin joder a otro. La felicidad es también un poco de solidaridad.

Gurises, no sé el rumbo que va a tener Argentina, se que va a salir de la angustia que tiene, ha salido mil veces. Es un país riquísimo y tal vez su desgracia esta ahí, en el exceso de riquezas que tiene. Ustedes son responsables de lo que va a venir, pero gasten su existencia a favor de la causa humana, no se olviden de los miles que no pueden venir a la universidad, de los que todavía se acurrucan en la soledad de los campos, de las montañas, en los socavones. El ser universitario no es un privilegio es una obligación, la de servir a su pueblo y no para oprimirlo. Por eso: suerte y hasta siempre.”

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José Mujica, ex-presidente do Uruguai, em palestra proferida no mês de outburo de 2019, em Buenos Aires. (Reproduzido do site “La Tinta”