Ausência

  –  Um mini conto de Úrsula Férras  –


Respirou profundamente todo o ar daquele instante, como se quisesse a certeza de que ainda estava presente, mas o cheiro ácido da ausência, impregnava o ar daquele dia.
Tudo cintilava um esvaziamento imensurável e sentiu-se de repente absolutamente invulnerável . Caminhava em passos firmes um palmo acima do chão, com as portas fechadas para os outros. Cada frase que lhe diziam era necessário a repetição, pois seus ouvidos também estavam longe do mundo.
Pensou que morrer é algo que também se faz sonhando entre os vivos. Assim o dia que nunca foi, passou como um suspiro, um sopro que entra inoportuno nas janelas de um corpo que decide não estar…
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Úrsula Férras Peçanha é historiadora, professora, trabalha em biblioteca pública e é bailarina flamenca, tudo na cidade do Rio de Janeiro. Gosta de música, literatura e de caminhar pela Mata Atlântica. O texto acima foi publicado na revista Escrita 49.