Barão de Itararé

  –  Um humor daqueles de entrar para a História  –

Apparício Torelli, autointitulado “Barão de Itararé, o Brando”,  “campeão olímpico da paz”, “marechal-almirante e brigadeiro do ar condicionado”, “cantor lírico”, “andarilho da liberdade”, “cientista emérito”, “político inquieto”, “artista matemático, diplomata, poeta, pintor, romancista e bookmaker”, pode ser considerado com um dos maiores humoristas brasileiros de todos os tempos.
Dele, que viveu entre 1895 e 1971, disse Jorge Amado: “Mais que um pseudônimo, o Barão de Itararé foi um personagem vivo e atuante, uma espécie de Dom Quixote nacional, malandro, generoso, e gozador, a lutar contra as mazelas e os malfeitos”.
Apesar do título real com o qual se autorreferendou, Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly , claro, não nasceu no seio da nobreza. Em seu sangue, vermelho, sempre correu o humor e a irreverência popular com tudo e com todos. Principalmente com a política e as classes dominantes, o que lhe rendeu o título de pioneiro no humorismo político brasileiro.
[box] Máximas e Mínimas, a filosofia do Barão de Itararé:
“O uísque é uma cachaça metida a besta. O que se leva desta vida é a vida que a gente leva. A criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer. Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes. Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo. A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda. Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância. Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar. Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas. O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro. Quem ama o feio é porque o bonito não aparece. Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado. De onde menos se espera, daí é que não sai nada. Quem empresta, adeus. Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos. O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro. Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades. A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana. Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.  O fígado faz muito mal à bebida. O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso. A alma humana, como os bolsos da batina de padre, tem mistérios insondáveis. Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo… Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está. As duas cobras que estão no anel do médico significam que o médico cobra duas vezes, isto é, se cura, cobra, e se mata, cobra. Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra! Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco toma! Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta… Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo. Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer. O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato. Em todas as famílias há sempre um imbecil. É horrível, portanto, a situação do filho único. Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados. Quem não muda de caminho é trem. A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele. O Brasil é feito por nós. Está na hora de desatar esses nós. O mal do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta. Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse a você. A sombra do branco é igual a do preto. Este mês, em dia que não conseguimos confirmar, no ano 453 a.C., verificou-se terrível encontro entre os aguerridos exércitos da Beócia e de Creta. Segundo relatam as crônicas, venceram os cretinos, que até agora se encontram no governo. O bacalhau é um peixe lavado e passado a ferro. As mulheres de certa idade nunca são de idade certa. Deus dá pente a quem não tem cabelo. Os vivos são e serão sempre, cada vez mais, governados pelos mais vivos. A guerra é uma coisa tão absurda e incompreensível que, quando se registra um combate de amplas proporções, até as baixas são altas. Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa. Todo homem que se vende, recebe muito mais do que vale.”[/box]

Plebeu, quase médico, jornalista engajado

Brasão criado pelo Barão de Itararé

Gaúcho de São Leopoldo, nasceu em janeiro de 1895. Filho de pai brasileiro e mãe uruguaia, ele viveu no país vizinho até 1902, quando voltou para a sua terra natal. Desde a infância mostrava tendência para o humor e habilidade para escever.  Porém, antes da dedicação ao jornalismo, cursou algum tempo o curso de medicina em Porto Alegre. Em 1919, abandonou a faculdade no terceiro ano e começou a escrever poesia para jornais e revistas.
Em 1925 mudou para o Rio de Janeiro e foi contratado pelo jornal “O Globo”. No ano seguinte se tornou colunista do periódico “A Manhã”. E ainda em 1926, com seus textos em alta, transformou a coluna que escrevia em um semanário independente que batizou de “A Manha”.
Devido às críticas aos governos, personalidades políticas e instituições, Torelly foi preso, espancado e censurado. Mesmo assim, não abandonou o apego ao humor e tampouco à política, tornando-se vereador pelo PCB em 1947. A sua campanha tinha como slogan “Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite”.
Apporelly, como também era conhecido, morreu no Rio de Janeiro, em 1971.

________________________
Guatá/Fontes: CulturaBrasil e Bula.

Arquivos

Categorias

Meta