Bernardo é quase árvore

–  Um poema de Manoel de Barros  –  

Manoel de Barros por Tuca Vieira/Folha Imagem

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos
ouvem de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seus olhos renovam as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios – e
1 esticador de horizontes.
(Ele consegue esticar o horizonte usando 3
fios de teias de aranha.
A coisa fica bem esticada.)
Ele desregula a natureza:
Seu ombro aumenta o poente.
(Ele pode enriquecer a natureza
mesmo não sendo tão completo?)


Manoel de Barros, poeta brasileiro.