Bosque Guarani, memórias pra se contar

  –  Cravado em uma área de 4,5 hectares no centro de Foz do Iguaçu, o Zoológico Bosque Guarani atinge sua maioridade em 2017. São 21 anos de uma história que vamos tentar contar um pouco nesta reportagem.
(Texto e Fotos: Áurea Cunha)  –  

Vista aérea do Bosque Guarani, no centro de Foz do Iguaçu. Ao fundo, o rio Paraná e a costa paraguaia. (Foto: Áurea Cunha)

No início dos anos 90 do século passado, o que hoje é o Zoológico Bosque Guarani, não passava de uma área verde sem grandes cuidados. Virava aos poucos depósito de lixo e de problemas. A área resguardada, que pintava de verde um pontinho do centro nevrálgico da cidade, havia sido entregue ao patrimônio público décadas antes por uma das grandes empresas extrativistas do ciclo da madeira no Oeste do Estado. Tanto quanto esquecida pela oficialidade, aos olhos mercantis, crescia como uma preciosidade a ser (de)lapidada. A área inspirava a ganância e a especulação, devido à sua importante localização no mapa urbano do Município.
Quem conta um pouco desta história é o jornalista e ativista dos Direitos Humanos, Aluízio Palmar. Ele que foi secretário municipal de Meio Ambiente, no segundo ano do mandato de Dobrandino Gustavo da Silva, prefeito da cidade entre 1993 e 1996, um momento decisivo para a história da pequena reserva natural.
Palmar conta que à época, havia uma sondagem que chegava até o poder municipal, da possibilidade de se vender aquela área para a iniciativa privada. Afinal, sua localização tão nobre do centro de Foz despertava o interesse do setor imobiliário. No entanto, sendo uma área pública, precisava passar pelo que se chama de desafetação, um instrumento jurídico pelo qual o Estado torna um bem público apropriável e disponível para a venda.
Nesse meio tempo, entrou em cena um movimento composto por ambientalistas da Adeafi – Associação de Defesa Ambiental de Foz do Iguaçu, então presidida pelo jornalista Adelmo Miller. Uniram-se à entidade ecológica, políticos e cidadãos simpatizantes da ideia de manter o bosque como patrimônio público. “Juntou a força dos conservacionistas, Adelmo e companhia, a outros políticos simpatizantes e eu peguei a ideia e levei até o prefeito”, explica.
“O zoológico foi uma consequência da tentativa de se preservar o bosque. Para neutralizar àqueles que defendiam que o Município deveria abrir mão do espaço, precisava-se ocupar efetivamente o Bosque. Pois transformá-lo apenas em um lugar de passeio, não seria suficiente para impedir a ofensiva da ideia de vender. Os animais, afinal, acabaram ajudando para que a área não virasse especulação imobiliária. Se não saísse o zoológico a área seria vendida e seria o fim daquele remanescente de mata e das nascentes que existem ali”, completa Palmar.
 
Patrícia Cubas, desde o começo…
Patrícia tratando de um felino do Zoo Guarani. (Foto: arquivo pessoal)

A curitibana Patrícia Cubas foi a primeira veterinária contratada especificamente para o Zoo, e permanece trabalhando nele até hoje. Ela conta que começou a trabalhar em 1995, quando já se finalizavam as obras estruturais. Começava aí a etapa operacional, que consistiu na busca de animais que viriam a compor o acervo. E eles vieram de doações de outros zoológicos, de particulares e de apreensões.
Patrícia conta que trazer o primeiro exemplar de onça pintada, cedido pelo Zoo de Curitiba, por exemplo, fez-se um esforço grande. “Uma viagem longa, feita de caminhão, tendo de parar constantemente para hidratar o felino.
“A grande dificuldade foi mesmo adequar os ambientes então construídos sem levar em conta peculiaridades do Zoológico que nascia. O projeto arquitetônico havia sido entregue pronto para a Prefeitura. Aqueles que iriam trabalhar depois no Zoo, veterinários e biólogos, foram pouco consultados com relação à estrutura”, explica.
 
Assim, ainda que restritas, adaptações e pequenas improvisações foram realizadas para o funcionamento. “Não tínhamos, por exemplo, nem um ambiente com tanque para lavar os vasilhames de água e alimento dos animais, aí improvisamos um tanque com duas cubas de alvenaria”, explica.
“Começamos com um administrador que nos ajudava na burocracia, uma funcionária de serviços gerais que fazia a limpeza, um tratador de animais sem nenhuma experiência e orientado por mim, eu como veterinária e o biólogo Ivo Alberto Borghetti, que na época era o diretor de Meio Ambiente e que acompanhou a implantação do Zoo”, recorda Patrícia.
A veterinária também lembra de que desde a inauguração o espaço não ganhou obras expressivas. Com exceção de uma vez, em que foram revitalizados os lagos e trocado o telhado da administração, durante as duas décadas decorridas, somente pequenas adaptações de mobilidade e serviços básicos de manutenção dos prédios, trilhas e recintos foram realizados. Em sua trajetória, o Zoológico não recebeu recursos extras que pudessem se desdobrar em grandes melhorias. A ele quase sempre foram destinadas verbas no orçamento municipal para o básico, priorizando alimentação e medicamentos para os animais.
Leia também: Visitar um Zoológico pode fazer você pensar…
Leia também: Um santuário, suas dificuldades e sua importância
 

[box] EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO BOSQUE

Sede do Centro de Educação Ambiental, que funciona dentro do Zoo Guarani. (Foto: Áurea Cunha)

Além das trilhas de visitação, o Mini Zoológico do Bosque Guarani tem um espaço voltado para a educação ambiental, que é o CEAI – Centro de Educação Ambiental do Iguaçu. Nele são realizadas palestras, formação de professores para que repliquem os conteúdos em sala de aula e em programas educativos relativos à questão ambiental. Lá também funciona a “Sala Verde”, um programa do Governo Federal. O CEAI ocupa o espaço que no projeto original era para ser uma lanchonete e que nunca funcionou. Assim, em 2012, com a parceria da Itaipu Binacional o espaço foi remodelado para que fosse ocupado pelo Centro.
 
Uma equipe de quatro professores da rede municipal desenvolve os projetos. A professora e educadora ambiental Rosani Borba conta que um deles prevê visitas orientadas, agendadas pelas escolas que podem ser públicas ou privadas. “Na visita, os alunos conhecem a história do Zoo, e recebem explicações do porquê desses animais não estarem em seu habitat natural e as consequências de se ter um animal silvestre em casa. Também é explicado sobre a alimentação dos animais, que é coisa que a maioria da população desconhece de onde vem.”, comenta a educadora. Ela acrescenta que apesar dos alunos se interessarem mais pelos animais, no Bosque são desenvolvidos diversos estudos também sobre a flora nativa.
 
Para o biólogo do zoo Sidnei de Oliveira, que trabalha no zoo desde 2001, o Bosque Guarani tem potencial para ser uma sala de aula a céu aberto se soubermos aproveitar os conteúdos de Zoologia, Botânica e até sobre Relevo a serem estudados no local.
 
PARCEIROS ANTIGOS – O Colégio Adventista, vizinho do Bosque, existe a pelo menos 30 anos. Ele tem classes regulares da educação infantil até o ensino médio, matriculando alunos de três até dezessete anos. Para a coordenadora pedagógica Graziela Cemin, a relação daquela escola com o aquele espaço público é muito próxima. Seus alunos, conta, são sempre convidados para as atividades e até já cultivaram e cuidaram especialmente de uma horta do Zoo.
 
“Ficamos muito felizes por ter esta biodiversidade próximo de nosso colégio. Percebemos que nossos alunos são cidadãos mais preparados, com maior consciência de preservação e com maior entendimento de sua responsabilidade para com o Planeta. O Zoo é um grande laboratório para nós, nossos alunos vivenciam na prática o estudo da fauna e flora utilizando o Bosque Guarani.”, conclui Cemin.
“Tirando de Letra no Zoo”, a Guatá no Bosque Guarani, em 2004.

[/box]

Arquivos

Categorias

Meta