Brasilices!

  –  Um texto de José Maschio  –  


A sala de recepção (recepção seria o termo?) da Upa está lotada de anseios e dores. Uma terça-feira fria, depois de calor intenso. Crianças tossem em grupos, uma lá no canto chora. A mãe a abraça como se seus braços fossem um estranho cobertor. Mais ao fundo, como um relógio, um velhinho, encurvado, mãos na altura do estômago, solta um gemido a cada minuto.
O relógio mostra pouco mais das 6h30 da manhã. Quando a Tv na sala de espera (a tal de recepção) anuncia, em um volume inadequado para um posto de saúde, a entrada de um repórter. Tinha você dúvidas de que a Tv estivesse sintonizada na Vênus Platinada?
O rapaz pergunta qual um vendedor de consórcio de boas notícias. Adivinhe qual o país que mais recicla embalagens de agrotóxicos do mundo? Pronto. No país onde o grande irmão é programa nacional, a sala entra em suspense. Até as crianças param de chorar. O velhinho ganha posição ereta, expectativa…
O repórter (polianismo pouco é besteira) respira fundo, aguarda o efeito necessário de seu silêncio (ele é sucesso…) e crava. Isso mesmo. O Brasil é o campeão mundial de recolhimento de embalagens vazias de agrotóxicos. Em tempo: agrotóxico foi um termo cunhado, na década de 80, pelos donos do poder para substituir o nocivo termo veneno agrícola.
Nenhum pio, nenhuma palavra sobre o Brasil estar no topo do ranking dos consumidores de venenos do mundo. Nem sobre os malefícios desses à saúde humana, animal e ao ambiente. Afinal, o país é campeão do mundo. Isso é o que importa.

José Maschio é jornalista, escritor e professor universitário em Londrina – Pr.

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