Bruno

  – Um conto de Rubens Dionísio  –

A cidade que sempre dorme. Naquele dia, acordou. Desço as avenidas, viro esquinas, sou dono das ruas, entro em um beco errado. Na distância, vejo homens, o ruivo carrega um torso. Pega-o pelos lados, suja-se, joga no porta-malas. Sem pernas, sem braços, mas reconheço o rosto. Os cabelos grandes, negros, cacheados, agora cortados, assim como os membros, por vontade daqueles lobos.  O rosto esguio, no fundo do porta-malas. Mataram o único amigo que eu tinha. O ruivo me percebe. Aparecem outros. O menor eu também conheço, veio do interior pra cá, e o mais alto, pálido, estudava comigo uns anos atrás.
Aproximam-se de mim, me viro, vejo outros dois. Finjo não entender, eles fingem também, não me olham, tento escapar, o europeu magro passa encostando o ombro contra o meu. Carregava uma galinha. Quem sabe eu tenha me enganado, e aqueles rostos não eram de ninguém, ou quem sabe eles não têm interesse por mim, apesar do que eu tinha visto. Passo rápido, nervoso, tremendo pelas quadras todas desertas. O de roupas coloridas e máquina fotográfica me segue. Num carro passando no sentido contrário, vejo a mulher.
Mataram o Bruno. Estudava publicidade, ou artes, qualquer coisa assim. Fiquei amigo de uns amigos dele; ele, dos meus. Bom sujeito não merece ser esquartejado.
Atravesso as ruas mais largas. Mais umas quadras e eu escapo. Aí vou na polícia, falo com todo mundo, damos o troco nesses caras. Mas ando por todas as avenidas e não vejo ninguém. Os prédios, assim como os telefones, todos mudos. Vou chegando no ponto mais alto da cidade, e quando a visão se abre, encontro o ruivo, o rapaz do interior, o pálido, o europeu, o fotógrafo, a mulher, agora não em um punhado, mas à frente de todos os sobreviventes que eu esperava ter encontrado antes. Cercam-me, vejo todos os rosto conhecidos, desfigurados pelo não-ódio, mortos-vivos. Os seis se aproximaram, lembro de cada um dos textos não escritos, dos filmes por fazer, de cada plano pro futuro. Na face deles, via cada zumbi comedor de cérebro que eu peguei na locadora.
O ruivo põe a mão sobre o meu rosto, me sufoca, os outros abrem meu tórax. Lembro do Bruno, acho que caio. Começo a duvidar que exista alguma morte que não seja premeditada. Morro com segredos, assim como o meu amigo. Os membros do exército maldito voltam para suas casas, suas faculdades, suas estações de radio e vídeo, e, em sincronia, todas as cidade do mundo voltam a dormir.
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Rubens Dionísio, jornalista nos EUA.  Em 2006, quando da edição da revista Escrita 1 de onde foi extraído o conto, era estudante de jornalismo em Curitiba, Pr.

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