Cadê o bar que estava aqui?

  –  Uma crônica de Nilson Monteiro  –  

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(Imagem meramente ilustrativa)

Encontro-o mudado.
Em lugar da antiga pérgula e da árvore que dava sombra e espaço para um banco velho de madeira, há um toldo de plástico sombreado pelo nome em neón, escrito em letras góticas: Bar do Padre. Há duas ou três mesas metálicas na calçada refeita, patrocinadas por um refrigerante. Antes, não havia nome algum, mas identidade na alma.
Não há mais as velhas e descoradas paredes. Renovadas e revestidas em decoração cubista, ocupam um espaço muito maior do que as do antigo estabelecimento (o Padre deve ter comprado ou alugado as instalações da mercearia ao lado).
As carcomidas mesas de madeira e seus banquinhos lustrados de uso deram lugar às metálicas, cadeiras iguais, com as cores e a logomarca do mesmo refrigerante.
Há janelas amplas, limpas, transparentes, em lugar da única que havia, vedada ao exterior pela gordura e sujeira acumulada.
Dois monitores de TV, um em cada canto do bar, transmitem programas de música sertaneja universitária. Canal cultural, com filmes estimulantes à libido, nem pensar. Futebol, vez ou outra, com jogos de campeonatos europeus.
Dos alto-falantes escandalosos, escapa o gosto duvidoso da música sertaneja universitária em vez do treme-terra, tamborins, reco-recos, caixas e apitos, ritmados pelo surdão.
No lugar do antigo mictório, de 1 por 1, porta só para magros, fio plástico de descarga imundo e disputado pelas moscas, com cheiro de banheiro de rodoviária, há um toalette de dois ambientes (masculino e feminino), exalando desodorante barato.
As históricas prateleiras, de bebidas notáveis, azedadas pelo tempo em garrafas engorduradas, sem limpeza há dezenas de anos, junto a troféus de futebol, foram trocadas por uma ou outra recordação envergonhada pelo marketing do tal refrigerante espalhado nas mesas, geladeiras, toldo etc.
O balcão refrigerador, de vidros embaçados, foi substituído por três freezers acomodados estrategicamente, exibindo a temperatura das bebidas.
Peço uma cerveja. Um atendente me informa que será levada à mesa e me dá uma comanda de plástico. Há mais deles correndo pelas mesas.
Ao fundo, onde um de seus filhos controla o movimento das mesas em programa computadorizado e fornece nota fiscal eletrônica aos clientes, está o Padre. Das paredes foram retiradas as fotos amarelecidas do Estrela d’ Alva, do Catraias, de mulheres peladas e de calendários, além das teias de aranhas e rachaduras, e fixadas outras, de marketing do refrigerante.
Vou até ao Padre, de olheiras pendentes penduradas em meio ao rosto macilento. E daí, Negão, tudo bem? A resposta sai em muxoxo sem graça: Tudo. E você? Teu bar está mudado, hein? Quem diria, hein? É, é, é.
Corro os olhos pelo ambiente e no lugar do ecumênico clérigo – Geraldinho, Bufren, Náutilus, Pira, Carlinhos, Cardoso, Divanir, Ratinho, Luisinho, Bolacha, Papagaio, Macedo, Bizzineli, Everson, Mickey, Macedo, Divanir, Paulinho, Rocha, Gersinho, Lauri, Jacaré, Hélio e tantos outros – vejo jovens com seu palavreado de signos incompreensíveis, pontilhado por palavrões em alto tom.
E daí, Negão, cadê os biriteiros, a cambada que frequenta esta baiúca há mais de meio século? Não sei, os caras, meus amigos, pararam de vir aqui. Nem no campo do Estrela eles aparecem mais. Nem a dona Marlene acredita.
Não só eles. Não encostam mais no boteco as senhoras de fim de noite, os recolhedores da fezinha do bicho, policiais no meio da madrugada, jogadores de futebol, empresários, bêbados contumazes, consumidores de sanduíche de pernil, carne de onça, dobradinha… Sobre as mesas, há um menu diversificado, com grande variedade de salgados, pratos frios etc. Plastificado.
Pô, Negão, mas não tem mais pendura, caderneta, loteria, jogo de bicho, rifa, book da mulherada? Tem nada, agora é só neste troço de comanda, cartão de crédito, o cacete. Nem posso, como quando eu estava de lua virada, me arrancar mais cedo pra casa e deixar a chave do bar na mão de vocês. Naquele tempo, noutro dia eu cobrava por estimativa, lembra? Você me deve tanto, tanto ou tanto, lembra? Acabou. Tudo agora é nesta porra de computador.
Tenho quase certeza que o Padre não bebe mais. Nem entra na gandaia, futricas, piadas, fofocas, cizânias, lembranças, mentiras, gargalhadas, atrás e na frente do balcão, entornando o copo dos dois lados. Não arrisco perguntar.
Peço outra cerveja. O rapaz pergunta a marca e a serve em minha mesa. Registra na comanda. Outrora, eu pedia direto para o híbrido de amigo, proprietário e frequentador eterno do bar, e ele trazia no balcão minha marca predileta, junto a um pratinho de amendoim salgado. Nunca perguntou preferência.
Não consigo beber. Pago a conta. Despeço-me do Padre. Vejo-o em tempos anteriores, amassando sua rota cadeira rasgada e cansada de uso. Deixo um abraço para os meninos, para os amigos que aparecerem e para sua esposa, dona Marlene.
Ele não se levanta, continua sentado em uma cadeira giratória, platinada, moderna, estica o braço.
Meu bar morreu.


Nilson Monteiro é jornalista e escritor em Curitiba, Pr. 
 

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