Cadê o mercadinho do bairro?

  –  Uma opinião de Alceu A. Sperança –

mercadinO grande problema da crise, que já se torna permanente, é seu caráter mais claro: a economia mundial não se destina a resolver os problemas da humanidade, mas a enriquecer os já ricos, mantendo os pobres como ávidos produtores e consumidores, esgotando-se na produção e endividando-se no consumo.
Nesse caso, o que é o tal do “desenvolvimento”? Produzir bastante não é, pois um dos grandes temores dos donos do mundo é haver mais produtos do que as pessoas sejam capazes de comprar – a chamada superprodução, indesejável para quem não dá a mínima para as necessidades humanas, apenas para os lucros.
O curioso da coisa é o “desenvolvimento” ser custeado pelo trabalho das pessoas, seus impostos e consumo. E a solução da crise também! Assim, para aquele que é sempre explorado, com ou sem desenvolvimento, ele está sempre em crise. E não só ele: a economia estará sempre em crise enquanto o egoísmo ditar as decisões.
No passado, os donos do mundo mentiam a curto prazo. Falavam em “erradicar a pobreza” imediatamente. Agora, mentem a longo prazo: dizem que pretendem “reduzir a pobreza”, não mais erradicá-la, até a metade do século XXI. Dentro de mais alguns anos serão mais sinceros e dirão: “Olha, nós não estamos nem aí com sua crônica pobreza: vocês que se lixem!”
Vários trilhões de dólares foram arrancados dos cofres nacionais para alegrar os nababos, banqueiros, magnatas e outros jogadores do cassino econômico-financeiro. É por isso que promovem uma ofensiva contra as organizações populares, para que não se atrevam a comandar o próprio destino. Quem é o povo para querer fazer o Estado nacional trabalhar em favor dos pobres e não para socorrer os grandes magnatas “ameaçados” pelas crises que eles mesmos criaram para lucrar ainda mais?
Povo tem mais é que se deixar escravizar, trabalhar para consumir até adoecer, dar lucro e recolher impostos até que, arruinado, abaixo de controle ideológico e uma propaganda massacrante, passe a receber uma aposentadoria que não pagará sequer os remédios para controlar os nervos abalados pela violência urbana e pelos preços excessivos dos serviços em geral e do transporte.
Submetidos a essa neoescravidão, imposta por uma propaganda ideológica imensa, que seduz, corrompe e embota corações e mentes, os cidadãos não percebem que a energia, os serviços públicos, água, florestas, matas e produção agrícola se concentram sob o domínio e o controle de algumas poucas e poderosíssimas corporações transnacionais.
Não é por incompetência, falta de empreendedorismo e descuido do Sebrae ou do Ceag que os pequenos negócios dos bairros são engolidos pelos grandes grupos, caindo como frutas maduras nas mãos de estrangeiros com seus testas de ferro de sobrenomes e sotaques locais.
A lógica da economia mundial não mira o pequeno e o médio empreendedores, mas a concentração. Os pequenos negociantes, que geram tantos empregos, se continuarem cegos para a realidade vão se arriscar, eles próprios, a se proletarizar e a preencher fichas de emprego nos grandes grupos transnacionais. Big Brother reinará neste grande Haiti.


Alceu Sperança é escritor em Cascavel, Pr. O texto foi extraído do jornal “Gazeta de Itapoá”, edição de 9 de novembro de 2016. Para contatos com o autor: alceusperanca@ig.com.br

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