Carta à Guatá

  –  Um texto de Maísa Melara  –

Guatá, para os guaranis, expressa o ato de caminhar e são, para os meus caminhos, que dedico esse mapa. Um mapa não com caráter de estruturar um território, ao contrário, um mapa que, de alguma forma, represente o meu processo de desterritorialização.
“Desconstrua!” Diriam eles. “Desde que”, continuam a dizer, “siga a estrutura”.
Queridos caminhos, como eu, vivenciadora de tantas paisagens, de tantos ensinamentos, de tantos encontros que vocês me proporcionaram, posso, agora, desconsidera-los?! Como transitar, agora, somente por um caminho?! Como deixar pra traz toda a bagagem, cheia de instrumentos que você, meu Guatá amigo, ensinou a usar para facilitar a caminhada?! E pior, como, agora, não enlouquecer sem os conhecimentos que acumulei ao longo das estradas que passei?!
Sabe, Guatá amigo, a trajetória, por eles orientada, não me ofereceram todas as ferramentas necessárias para transitá-la! Me fez acreditar que este era o único caminho certo, porque é traçado. Apresentou-se, antes da minha entrada, como uma jornada linear. “Agarra-se um objeto e ele te seguirá, imutavelmente, até o fim”. Esse é o maior subsídio, por eles fornecidos, para me facilitar.
No entanto, meus diversos caminhos, logo ao ingressar, percebi que esta jornada não é reta e, muito menos, o objeto um suavizador. Ela transpassa por fendas, por montanhas, por rios, por barreiras. Na verdade, compreendi, que ela faz muitas curvas. Assim, como todos os outros caminhos da minha vida. Porém, agora, querido Guatá, me coloco impedida de utilizar as pontes, os mosquetões, os barcos, as picaretas. Elas ficaram dentro da minha bagagem extraviada! E, deste modo, enlouqueço! Enlouqueço porque não sei viver sem essa minha mala. Era lá que estavam meus reais auxílios. Sem ela, esse caminho supostamente endireitado, se faz torto!
Não que, antes deste furto maior, eu não tenha perdido minha bagagem por aí. Mas, acontece, amigo Guatá, que antes eu não me sentia aparelhada! Podia voltar e resgatá-la. E, por muitas vezes, neste ato de voltar verificava o quanto a minha bagagem havia aumentado. Havia-se agregados mais instrumentos à ela. E, assim, poderia transcorrer por outros caminhos.
 Entretanto, agora, após ter percorrido a maior parte nesta jornada orientada percebi o quanto ela me estruturou! Me organizou de acordo a não mais ver os demais caminhos. E, por isso, meu querido Guatá, faço esse mapa em forma de carta. Quero lhe dizer, que por mais trancafiada que eles possam ter deixado minha bagagem, eu não me desvalidei dela. Hoje, mais que nunca, necessito das ferramentas que lá estão. Preciso recuperá-las. Faço isso pela minha Loucura. E, sobretudo, faço isso por você, meu caminhar…

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Maísa Melara é formada em Saúde Pública em Foz do Iguaçu, Pr. Texto publicado na revista Escrita 36

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