Centenário de Ana Primavesi: uma vida de amor à terra

Pioneira da agroecologia no Brasil e referência internacional, a agronôma completaria 100 anos neste sábado (3)

 

É impossível pensar na produção de uma alimentação saudável e na interação equilibrada entre os seres humanos e a terra sem os ensinamentos de Ana Maria Primavesi.

A agrônoma e escritora, que completaria 100 anos neste sábado (3), é a pioneira na compreensão do solo como um organismo vivo e referência mundial na área da agroecologia.

Primavesi é responsável pelo avanço nos estudos sobre o manejo ecológico do solo, técnicas abordadas em seu livro de maior influência, que revolucionou a prática da agricultura em regiões tropicais e lançou as bases para o desenvolvimento da agroecologia.

Ela foi, ainda, uma das pioneiras nas técnicas de preservação do solo e recuperação de áreas degradadas no país. Grande parte de sua produção – textos, apresentações, artigos, desenhos – está disponível gratuitamente em seu acervo online.

Segundo Vírginia Knabben, autora da biografia Ana Maria Primavesi: histórias de vida e agroecologia, a forma simples, didática e acessível com que a agrônoma escrevia e ensinava era uma de suas principais características.

“Ela consegue unir as ciências. Quando a ouvimos em uma palestra, em uma aula, vemos que ela junta a agronomia, com a hidrografia, com a climatologia, zootecnia. Ela fala dos bichos, das plantas, do clima, do solo, dos microorganismos. A doutora Ana tem a capacidade de juntar os conhecimentos e fazer a gente se encantar pela natureza”, afirma Knabben, que conheceu Primavesi pessoalmente em 2010.

Foram muitas tardes de conversas com a agrônoma, seus familiares e outras personalidades que fizeram parte de sua trajetória. A biografia foi escrita ao longo de seis anos.

Foto: Acervo/Ana Maria Primavesi

Virgínia conta que ao iniciar a pesquisa para a produção do livro, se surpreendeu não só com aspectos e acontecimentos da vida da “doutora Ana”, como a chama carinhosamente, mas principalmente com a riqueza de uma produção que explica em detalhes como a natureza funciona.

“É impossível ler as obras dela e não se encantar. Por ela e pela natureza. É um didatismo amoroso. Uma maneira muito Primavesi de nos fazer entender os processos da natureza. As escolas deveriam estar ensinando Primavesi como aprendemos Pitágoras, Lavoisier, Marx”, afirma.

Carin Primavesi, psicopedagoga e filha da pesquisadora, concorda que é urgente nutrir o amor à terra por parte das crianças. Isso porque, enfatiza ela, a agroecologia não é apenas uma alternativa e sim o caminho para um futuro com a garantia de uma alimentação saudável.

A pesquisadora, que atua na área de neurociências, desenvolveu o amor pelo cultivo agroecológico a partir dos infinitos aprendizados com sua mãe e fala com carinho de sua horta particular.

Carin ressalta a atualidade dos ensinamentos de Ana diante do grave contexto de degradação do meio ambiente no Brasil. Acredita que, caso Primavesi estivesse viva, continuaria espalhando a mensagem principal de sua obra:

“Ela falaria: ‘Cuidem do que é mais precioso, que é o solo’. Dele depende a água, o ar e nossa comida. O básico da nossa sobrevivência, o resto é supérfluo. Temos que viver e cuidar da natureza pois fazemos parte dela”, explica ela.

“Estamos simplesmente explorando, explorando, explorando e nunca dando nada de volta. E temos que cuidar do solo como algo precioso. Ele nos deu e agora devemos cuidar dele também”, argumenta.

E é exatamente a sintonia e a troca com o solo a marca registrada de Primavesi. Vírgina Knabben relembra um dos muitos momentos nos quais a agrônoma defendeu essa máxima.

“Uma vez ela foi em um campo de petróleo e cismaram em mostrar para ela: ‘Olha, fazemos assim, tiramos assim’. No final, ela olhou e falou: ‘Muito bem. Vocês tiram, tiram, tiram. O que vocês vão dar de volta?’ Esse é o raciocínio dela. E é assim que temos que pensar. Tiramos, tiramos, e damos de volta lixo, agrotóxico, transgênico. O planeta não vai dar conta”, critica a escritora.

 

Trajetória

Nascida na Áustria em 1920, Primavesi foi presa em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial e chegou ao Brasil na década de 1950, onde deu vida a uma extensa produção acadêmica que se contrapôs ao avanço desenfreado do agronegócio.

Foi professora da Universidade Federal de Santa Maria, onde contribuiu para a organização do primeiro curso de pós-graduação em agricultura orgânica. Autora de dezenas de livros e centenas de artigos acadêmicos, Primavesi foi também fundadora da Associação da Agricultora Orgânica (AOO) e ao longo de sua carreira e recebeu uma série de prêmios, como o One World Award, da Federação Internacional dos Movimentos da Agricultura Orgânica (IFOAM).

“Ela lutou bastante. No começo, ela apresentava as defesas dela e enfrentava um mundo muito masculino. Eram debates bem calorosos. Mas ela falava, ela sabia como era e não deixava cair a peteca”, comenta Carin Primavesi.

“Ela fez tudo pelo amor à terra. Não buscava nada em troca. Queria difundir [o conhecimento]. Mesmo se tivessem poucas pessoas para ouvi-las, ela falava”.

A engenheira agrônoma faleceu em 5 de janeiro de 2020, aos 99 anos, em decorrência de problemas cardíacos.

 

“Quero que o agricultor me entenda”

José Maria Tardin, integrante do setor de Produção, Cooperação e Meio Ambiente e da Frente Nacional de Agroecologia do movimento, não esconde o orgulho de ter compartilhado diversos momentos de aprendizado ao lado de Primavesi.

“Em sua trajetória, ela se constitui como uma pessoa com uma expressividade humana muito forte. Uma pessoa extremamente terna e que demonstrou um amor radical à terra mas também às camponesas e camponeses. Isso era muito perceptível”, relata Tardin.

Ele relembra quando, em 2006, a agrônoma foi convidada para passar três dias com estudantes camponeses na Escola Latino-Americana de Agroecologia. O convite para ensinar os jovens foi aceito prontamente e de forma voluntária.

Pesquisadora em campo com jovens camponeses / Foto: Acervo/Ana Maria Primavesi

A experiência e o aprendizado daqueles momentos seguem vivos na memória de Tardin, que, por diversas vezes, ouviu da agrônoma o quanto ela gostava de conversar e estar ao lado dos camponeses, vendo a teoria se tornar prática imediata.

No último dia das aulas, ele rememora que caminhava ao lado da educadora pelos corredores da Escola, que, ao olhar para um espaço coletivo onde estavam os jovens camponeses, proferiu uma frase que lhe emociona até hoje.

“Ela disse: ‘Agora eu sei que a agroecologia não tem volta’. E ficou em silêncio. Percebi que ela marejou os olhos em um momento de catarse da vida dela. Encontrou a certeza de sua realização humana. Uma vida dedicada completamente ao estudo da natureza, do solo e nas implicações disso na existência do ser humano”, conta Tardin, emocionado.

Para o integrante do MST, foi como se Primavesi estivesse pensando alto e ele tivesse tido a honra de ouvir esse pensamento em voz alta. A emoção ao presenciar um sistema de educação profissional em agroecologia de pé, com jovens de vários estados brasileiros, de outros países latino-americanos, e de famílias que vivem no assentamento onde se encontra a Escola, não pôde ser contida.

José Maria Tardin ao lado de Ana Primavesi na Feira Nacional da Reforma Agrária / Comunicação/MST

Tardin explica que os primeiros documentos do Movimento já traziam a necessidade de uma agricultura alternativa baseada no saber camponês. Aos poucos, o acúmulo do movimento foi infuenciado pelos escritos de Primavesi e, nos anos 2000, a agroecologia foi adotada como uma diretriz política nacional.

A agrônoma, inclusive, foi a principal palestrante da primeira Jornada de Agroecologia em 2002. O evento já está em sua 18ª edição. A partir de então, a relação entre os sem-terra e a pesquisadora se tornou ainda mais próxima com formação dedicada aos profissionais que ajudavam o movimento e aos acampados.

“A Ana Primavesi sempre se pronunciou defensora do campesinato, dos povos indígenas, dos quilombolas, das comunidades tradicionais camponesas e pela reforma agrária. Uma autêntica defensora da necessidade da reforma agrária como condição de uma agricultura de base ecológica capaz de produzir alimentos saudáveis”, reforça.

Na opinião do dirigente sem-terra, uma das maiores provas do afeto de Primavesi pelo campesinato foi a cessão de suas produções à Editora Expressão Popular, que tem lançado suas obras com o apoio da biógrafa Vírginia Knabben, que cuida do acervo da agrônoma.

Ele cita com carinho especial a obra A convenção dos ventos: agroecologia em contos, que classifica como a mais importante do século 21 para a formação do MST, principalmente na educação básica.

“São contos magníficos que estimulam o ser humano, independente da idade. São contos para se ler em momentos de roda de conversa, tomando um chimarrão no Sul ou comendo umbuzada no sertão. Com a viola na mão, uma sanfona, na cantoria. Se faz atividades múltiplas pela qualidade poético-científica dessa obra.”

A biógrafa Vírginia Knabben endossa a importância do diálogo com o trabalhador do campo para a doutora Ana.

“[No livro ‘A convenção dos ventos’] São contos de agroecologia onde ela fala do hidrogênio, da abelha, da minhoca, dos ventos, da fotossíntese, mas de uma maneira muito lúdica. Essa é uma marca registrada da doutora Primavesi. Ela se faz entender. Ela falava: Eu quero que o agricultor me entenda.”

Em razão do centenário da pesquisadora, a Editora Expressão Popular lançará em breve a obra Cartilhas da Terra, que reúne conteúdo inédito encontrada por Knabben no acervo da agrônoma.

“É o primeiro livro póstumo e que celebra esse centenário. Ele vem cheio de cor, vem cheio de alegria, de ensinamentos. É o que queríamos trazer para essa data”.

Agrônoma participou da primeira Jornada da Agroecologia em 2002 e segue como uma grande referência para o MST / Foto: Acervo/Ana Maria Primavesi

 

Legado vivo

Maria Tardin não tem dúvida de que os ensinamentos de Primavesi são a base para que o movimento e os defensores do meio ambiente lutem contra a depredação da natureza causada pelo neoliberalismo e pela exploração em nome do lucro.

“Apoiados nos ensinamentos de Ana Primavesi, ganhamos uma competência e não só técnica, no sentido da orientação adequada do manejo dos agroecossistemas, mas qualificamos nosso projeto político. Tensionamos o capital como predador e apresentamos uma alternativa factível, que é o que já realizamos na prática”, enfatiza.

Vírginia se alegra ao sublinhar que doutora Ana segue como uma grande inspiração para milhares de pessoas do mundo, para além do movimentos sociais do campo.

Ana Primavesi cedeu todos seu acervo para a Editora Expressão Popular / Foto: Divulgação/Expressão Popular

“Estamos seguindo seu rastro. O rastro é uma marca na terra. A seguimos por ser o caminho mais seguro. É o caminho demarcado, por onde sabemos que podemos chegar. A Primavesi deixou um rastro de sabedoria e estamos aqui para nos apropriarmos. Reverter o jogo”, finaliza.

Por Lu Sudré / Brasil de Fato

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