Chacina de Árvores

  –  Uma crônica de Áurea Cunha (Texto e fotos)  –

 

Eu sou uma das três majestosas árvores que foram extintas na manhã de primeiro de abril de 2011, na Avenida JK, esquina com Bartolomeu de Gusmão, em Foz do Iguaçu, no Paraná.
 
Minha maior felicidade era estender meus braços e abrigar-te em minha sombra. Sentia-me útil quando se detinhas sob mim para refazer tuas forças por uns instantes e depois continuar a tua jornada.
 
Extasiava-me com os pássaros que pousavam amigáveis sobre meus fartos galhos, eles amavam a nossa presença ali. Vivíamos! Éramos sadias, maduras, robustas e felizes. Nosso sangue corria em nossas veias, assim como nas tuas.
Alguém encomendou nossa morte por motivos banais. Oh! Insensata criatura amante do deserto, não percebestes que a paisagem ficava bem mais bela conosco por ali? Acusaram-nos de atrapalhar a visão dos comércios sem levar em conta nossos benefícios. Um dia hão de sentir a nossa falta!
 
Mas ninguém se compadeceu de nós, ninguém veio nos defender, nem se escandalizaram com o sangue que jorrou de nossos troncos dilacerados e amontoados na calçada. Teve alguém que parou para tirar umas fotos, talvez atraída pela curiosidade sobre o vermelho de nossa seiva e depois se foi apressada.
 
Sem nenhuma resistência e silenciosamente nos entregamos em inevitável martírio. Nenhum humano chorou por nós! Só o céu se fechou e derramou uma zangada chuva que sombreou a cidade por um tempo. Apesar de ser primeiro de abril, não era mentira, estava consumado nosso desenlace.
 
Mais tarde nossos despojos foram retirados daquela esquina com uma estranha rapidez. Talvez a visão de nossos troncos sangrando pudessem causar algum desconforto aos transeuntes mais sensíveis.
 
Um dia um pintor disse que seu segredo ao retratar paisagens que ele nos via como homens a dançar nas encostas.
 
PS! Nós, árvores, fazemos a incrível transformação de gás carbônico em oxigênio; enquanto vocês, humanos, transformam o oxigênio em gás carbônico. Pensem nisto!
___________________________________
Áurea Cunha é jornalista e fotógrafa em Foz do Iguaçu, Pr. Texto publicado originalmente no portal Guatá em 2011 e revisado em 2017.

Arquivos

Categorias

Meta