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Construindo o 8 de Março

Uma opinião de Daniela Schlogel

Obra da grafiteira Sinhá em muro de São Paulo. (Foto: internet)

Estão chegando as mobilizações do 8 de março, durante todo o ano nós mulheres vivemos a carga da diferenciação de gênero, mas pra mim é quando começamos a discutir isso nos coletivos que esse assunto me pega de uma forma mais intensa, acontece também porque foi nessa época que uma amiga, a Martina, foi assassinada por um cara que ela estava saindo, fato que eu nunca conseguirei elaborar efetivamente.

O que eu mais tenho pensado ultimamente é sobre uma carga específica das mulheres de classe média as quais eu convivo mais, são mulheres de trinta e poucos anos que em regra geral trabalham e possuem um companheiro. Amigas que eu conheci jovens e cheias de sonhos, quando não nos diferenciávamos como pessoas, e hoje vejo ficarem um pouco apagadas porque nas relações o protagonismo é sutilmente masculino. Isso me causa uma dor velada, porque vejo isso em mim e nas minhas. É de fato muito sutil como nossas famílias ainda veem o nosso trabalho como menos importante porque no limite é complementar e se der tudo errado temos nossos companheiros para nos sustentar.

Dois filmes que abordam esta temática sem usar esses termos estão sendo exibidos por aí e sensibilizando diferentes subjetividades. Um é “A Vida Invisível”, história de duas irmãs que tem suas vidas apagadas por esta estrutura cruel, e o segundo é “Histórias de um Casamento” onde uma mulher com um relacionamento estável “resolve” se separar como se fosse uma decisão arbitrária já que não existiam grandes problemas.

São nesses “grandes problemas” que venho pensando, enquanto no primeiro filme o pai expulsa de casa a filha com um filho porque ela abandonou o marido (o que até hoje a gente realmente vê de fato como um grande problema), no segundo filme estamos falando de famílias que já superaram isso, onde isso não ocorreria e então entende-se que o machismo também foi superado, mas o filme mostra que não foi, de forma discreta a ponto de passar despercebida por telespectadores desatentos do Netflix. O drama da atriz casada com seu diretor que está presa naquele lugar de protagonistas dos espetáculos que eram dele, revela uma opressão de gênero que passa despercebida por ser muito mais sutil do que os feminicídios que matam uma mulher a cada 30 minutos no Brasil, por demissões de recém mães regressadas ao trabalho, estupros coletivos e casos, que embora extremos, muito comuns no nosso país. Veja, colocar como comum não é normalizar.

É totalmente doente a forma como convivemos com estas estatísticas achando que está tudo bem, não deveríamos conseguir dormir, deveríamos falar sobre isso todos os dias até que isso acabasse. Os números dizem que isso não acontece de vez em quando, acontece todo dia, na nossa cara. Mas, enfim, a situação é grave e está aí em graus diferentes e em situações diferentes, o que eu estava falando é sobre a desigualdade velada dentro das relações que nós julgamos mais evoluídas.

Em Histórias de um casamento, o casal bem-sucedido, com a trilogia hipervalorizada pela nossa sociedade (jovens, bonitos e inteligentes), sem problema de grana, reproduzem a estrutura de mulher como apoio, ela pode até ser a estrela das peças, mas ele é quem escreve. Quando ela percebe as correntes que a seguram e resolve se separar, os olhares de julgamento para ela são referentes a questionar se não seria um equívoco da sua cabeça. Ao fim, depois de tudo, ela recebe um prêmio de melhor diretora ou algo assim. A ideia de que a premissa maior da nossa vida é a nossa própria liberdade custe o que custar não é lugar comum, nunca foi, embora diante do vazio da existência a gente saiba que existe algo a se almejar (e o caminho a ser perseguido vai variar de acordo com o gênero, a posição de classe e raça de cada uma de nós) deixamos quieto esse assunto sempre que podemos, mas continua sendo um tema transversal que está a todo tempo rasgando a gente por dentro chegando por um filme, uma música ou um pensamento.

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Daniela Schlogel é economista, formada na Unila, e atua em Curitiba, Pr.


Sinhá é natural do Rio Grande do Norte e trabalha com grafite na cidade de São Paulo.

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