Contínuo

  –  Um poema de Sidney Giovenazzi  –  

_continuo_sidney

Tudo é contínuo
do nexo
ao reflexo

Ambíguo
ou unívoco

É contínuo

Mais contínuo
que infinito
contínuo atordoante
insistente
físico
possante
prolixo
o infinitivo
instinto do princípio
percorrendo seu próprio fio
rumo ao contínuo pós-continuado
do infindo

Um contínuo desatino
emaranhando-se impenetrável
inexpugnável
místico
inevitável
prolífico destino
continuando em ciclos
em que o cíclico é melífluo
o empírico círculo
de ous
e bem-vindos

Veio
de tempo nenhum
esse contínuo
do espaço sem lastro
do universo
de leis sem bandidos
a própria química do hospício

É contínuo
como crer no finito
ser a folha em gracioso e léxico declínio
e continuar caindo
e sendo assim contínuo o quedar
do eucalipto
levando-se caído
por outro fluxo contínuo
sem o benefício do desvio
o estrito fim
o último suspiro
na floresta
um espírito que resta
em paz
começa outro assobio
o silvo entre os ramos proferido
nunca jaz
pelo vento
de um novo
continuamento

Continuar perseguindo
o ausente laivo de um icto
ou soçobrar ante o antídoto
ou continuar indo ao antigo
elixir de um jazigo
contíguo entre contínuos
e essa tese
descontínua
de ídolos
se encadeia
na prisão dos túmulos
desde o umbigo
a nova lógica
de um velho contínuo
em repetido início

Contínuo em febre
ser confinado ao fixo
ou morto por periódico
desejo de infinito
sempre corrompido
o contínuo
não se mede
em hadrons
mas se expande
por pruridos

Continuo
no planeta em giro paleolítico
num único
sentido
em tontura
infantilismo
e o contínuo
delirar
das criaturas

Contínuo
este louco labirinto
retilíneo
em curvas mitos derivativos
continuaram
continuarão
contínuos
oblíquos
o coração
o pulso
o rio de vereditos
e ao respirar
reflito:

Deus
como poderei
ficar limpo
eu
contínuo
me separar
desse contínuo
e estacionar
num limbo?


Sidney Giovenazzi é músico em São Paulo, SP.  
Ilustração: A Verdade sobre os Pardais”, de Kuroi Kisin

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