“Curaçá, conto 1”, por Yara Barros

Textos e comentários de Yara Barros

Sempre que tenho lembranças de Curaçá eu penso que gostaria de escrever as histórias lindas vividas lá, e claro que sempre a vida doida que eu levo vai empurrando essa atividade para o fundo de uma lista gigante de coisas que quero fazer.

Daí resolvi escrever os Contos de Curaçá, textos curtos (ahã) com pedacinhos das histórias vividas por lá, como se fossem retalhos de uma colcha que eu vou costurando. Aliás, convido todo mundo que passou por lá para trazer seus retalhos para essa colcha, e juntos vamos lembrando, porque é muita vivência linda que não deve ser esquecida. Bora?

Meus antigos estagiários sempre falavam que íamos escrever uma peça de teatro chamada “As Bage da Algaroba: a peça nunca escrita”. Não saiu. Mas agora, orgulhosamente (ok, sem orgulho, mas com alegria) apresento os Contos de Curaçá!

Contos de Curaçá – Conto 1

Quando eu mudei para Curaçá, sertão da Bahia, acabei alugando uma casa gigante, a frente da casa virada para a praça do teatro e os fundos para o mágico Rio São Francisco. Uma visão do paraíso, especialmente em noites de lua cheia quando a lua desce e “beija” o rio. Só vendo, nem dá para descrever.

Enfim, não tinha grana alguma (bolsista nunca tem), não tinha móvel algum e queria deixar a casa bonitinha. Daí tasquei tinta em tudo o que é parede, pintei um monte de caixas de papelão que viraram estante, pintei potes de plástico que viraram vasinhos (sim, roubei uns filhotes de cacto da caatinga).

Depois disso, comprar o básico do básico, parcelado em 10 meses, claro: uma mesa, um colchão para dormir, um gaveteiro e uma cadeira de madeira que pintei com muitas cores. Sim, isso foi tudo o que consegui comprar.

Mas eu precisava de alguma coisa para sentar na sala. Tinha um edredon velho que eu pintei (sim, com mutas cores), mas precisava de “uma coisa de sentar” para jogar o edredon em cima. Daí tive uma ideia brilhante (SQN), de comprar um colchão de casal, cortar no meio colocar um pedaço em cima do outro, jogar o edredon por cima e voilá! Eis um sofá. E mais barato do que comprar um sofá de verdade ou dois colchões de solteiro para empilhar. Claro que ficou um horror e todo esgualepado, mas serviu de assento para muitas bundas amigas por quatro lindos anos.

Pintei uma luminária de vermelho (inclusive a lâmpada)…sei lá, pareceu uma boa ideia. Joguei fora a lâmpada 5 minutos depois quando as pessoas disseram que ia virar a casa da luz vermelha.

Mas o causo interessante foi quando levei o colchão novinho em folha em um lugar em Curaçá que me indicaram. O lugar era uma portinha, e claro que não cabia o colchão inteiro dentro dessa “oficina” (infelizmente não lembro o nome do dono).

Eu pedi para ele cortar o colchão no meio, ele me olhou como se eu tivesse comido fruto de mandacaru envenenado e perguntou se eu tinha certeza, e eu disse que sim, expliquei a ideia do sofá (o que certamente não melhorou a imagem que ele já tinha formado da “gringa” louca). Ele colocou o colchão na calçada, pegou uma ripinha de madeira e usou como régua para riscar, sacou uma faca gigante e afiada do nada (eu esperava uma serrinha, uma ferramenta….sei lá….precisa e delicada?) cortou o colchão como se fosse manteiga com aquela facona imensa, olhou para mim e disse:

Rapaz…..já me trouxeram muito colchão velho para remendar, mas trazer um nooooovinho para eu estragar foi a primeira vez!

Eu abri um sorriso gigante que foi embora para casa comigo e minhas metades de colchão.

Pense numa delícia de cidade!

(fim)

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Yara Barros é bióloga, coordenadora do programa Onças do Iguaçu. Atualmente vive em Foz do Iguaçu, Pr.