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Conversando com Santos Dumont

Santos Dumont voando no seu ’14 Bis’, na França. (Reprodução)

 Há cem anos, em Foz:

No distante abril de 1916, Santos Dumont passou pela então Vila Iguassu, para visitar ‘os Saltos’, forma como os da época se referiam às Cataratas do Iguaçu. Ficou maravilhado com o que viu e, não satisfeito em contemplar, decidiu-se por defender a ideia de que o governo encampasse a propriedade com a finalidade de transformá-la em um espaço público de visitação.
O inventor do avião, que estava hospedado no primeiro hotel de Foz, no centro da cidade, disse ao anfitrião Frederico Engel que tamanha beleza não podia ser propriedade de um só. Os ‘Saltos do Iguaçu’ tinham de ser preservados e abertos à contemplação de todas as pessoas.
Dumont partiu para Curitiba e, depois de dias, andando a cavalo trem e automóvel esteve com o Presidente do Paraná, Affonso Alves de Camargo, pedindo a expropriação daquelas terras. Seu intento teve frutos três meses depois, quando o governo paranaense declarou de utilidade pública a área.
Depois disso, Santos Dumont rumou para São Paulo, onde deu entrevista para o jornal “O Estado de São Paulo”, falando de aviação e, em especial, da sua fascinação pelas Cataratas. A revista Escrita transcreve a entrevista publicada no dia 11 de maio de 1916, há cem anos, na sua íntegra:

“Conversando com Santos Dumont”

“Santos Dumont chegou ontem a São Paulo. Aqui está uma notícia que a muita gente causará surpresa. Pois então, chegou ontem Santos Dumont, brasileiro célebre, o inventor do aeroplano – e não se fez nada na cidade, não se viu manifestação popular nenhuma, nem a mais simples demonstração oficial?… Infelizmente, conosco é assim. Nós somos o povo das máximas expansões e da maior indiferença. Ou nos desmanchamos num entusiasmo descompassado ou nos encolhemos na apatia mais desoladora. Meio termo, o precioso meio termo equilibrado das manifestações sinceras, é coisa que não conhecemos. Por isso, Santos Dumont, que deverá ser recebido sempre entre nós com as demonstrações mais honrosas, chega sem ninguém o perceber quase, e não tem as homenagens que lhe são devidas. Entrentanto, certa vez a sua chegada a São Paulo foi um acontecimento que sacudiu de entusiasmo toda a população.
Mas Santos Dumont continua a ser celebridade. Não se inventa impunemente o aeroplano! Não se faz em aviação o que ele fez, sem estar sujeito a todos os percalços da glória…
E logo nos acudiu entrevistá-lo, conversar com ele alguns instantes, sobre a sua viagem ao Chile, sobre aviação, sobre os seus projetos futuros.
Alberto dos Santos Dumont é de pouca prosa. Evidentemente, faz pouco caso da sua celebridade e não gosta de “interviews”… Como, porém,  é o mesmo rapaz simples e franco, não é difícil a ninguém trocar meia dúzia de ideias ou de impressões com ele. Por menos que fale, sempre diz coisas interessantes…
Naturalmente, a conversa principia pela viagem. Que chegara bem, obrigado. Mas que viagem longa, da Argentina a São Paulo, por terra! A sua, sobretudo, tivera um acréscimo de seis dias a cavalo, 450 quilômetros, uma distância assim como daqui ao Rio – porque, tendo ido ver o ‘Salto do Iguassu’, quis vir de lá diretamente a São Paulo. Mas o Salto do Iguassu, que maravilha! Compensa fartamente os incômodos da viagem.
De Buenos Aires ao Iguassú, diz ele, são seis dias de viagem; três de estrada de ferro e três por via fluvial. Em todos os pontos onde desembarquei, recebi as homenagens mais delicadas das autoridades argentinas. Chegando ao Salto do Iguassú fiquei, positivamente, maravilhado. Imagine você um Niagara – ainda não viu o Niagara? Pois imagine uma imensa queda d’água oferecendo o mais bizarro pitoresco deste mundo; cachoeiras numerosas e variadíssimas, ilhas espalhadas por ali, e a vegetação, e uma infinidade de aspectos belíssimos. O Iguassú, sem exagero nenhum, é uma maravilha. Maior, muito maior do que o Niagara. O Niagara é uma formidável queda d’água – mais nada. Não tem o lindo pitoresco do Iguassú. Poder-se-ia dizer que há um Niagara saxônio nos Estados Unidos e um Niagara latino aqui no Sul da América…
Dumont fala fluentemente, com entusiasmo, um brilho vivo nos olhos escuros. Tez corada, bigode aparado à americana. No cabelo a mesma falha que já tinha há anos, quando aqui esteve.
Vem do Chile, para onde tinha ido diretamente dos Estados Unidos. Os longos meses que passou nos Estados Unidos, passou-os a viajar, percorrendo as fábricas de aeroplanos.
– A maior fábrica de aeroplanos do mundo está nos Estados Unidos. É Curtiss, com o capital de 16 milhões de dólares. Tudo quanto produz – ela e as outras – é para a Inglaterra. Naturalmente, enquanto durar a guerra, não pode ser de outra forma: a Inglaterra compra tudo. Mas depois, essas fábricas não poderão acabar; hão de continuar a produzir, a fabricar aeroplanos. Teremos então o aproveitamento definitivo do aeroplano como meio de transporte. Na América, principalmente, onde há deficiência de estrada de ferro, é que o aeroplano poderá prestar relevantíssimos serviços, não só como meio de transporte postal, mas ainda como veículo de passageiros…
– Quantos?
– Não se pode ainda dizer quantos passageiros poderá um aparelho transportar normalmente. Mas fique sabendo que já se transportaram vinte e nove pessoas num só aparelho. Não é uma bela lotação? Mas tudo isso, só depois da guerra.
Santos Dumont fala em seguida do Congresso Pan-Americano de Aviação, realizado em Santiago, no qual se estabeleceu uma federação das sociedades de aviação de toda a América:
– No Congresso, eu representei o Aero-Clube Norte-Americano…
Estava nos Estados Unidos quando se anunciou o Congresso. Imediatamente, o Aero-Clube Americano lhe pediu que o representasse. Do Brasil, nenhum pedido semelhante recebeu. Por isso, oficialmente, só representou aquela sociedade norte-americana de aviação. Particularmente, representava o seu país, que muito ama…
A propósito das festas a que assistiu em Santiago do Chile, Dumont conta que a sua chegada foi tal a aglomeração popular, tal a ânsia do povo na estação, que, apesar dos 400 policiais e das ordens severíssimas, houve um tremendo atropelo, o povo invadiu a estação, e por pouco não ficou sem vida o ministro do Brasil…
Em Buenos Aires, como em Santiago, foi tratado admiravelmente…
– Tão admiravelmente que até se falou no seu casamento com uma senhorita argentina…
– Mentira, não houve nada. Mas não é a primeira vez que falam do meu casamento. Ao que parece, por aqui não se tem o direito de ser solteiro…
Santos Dumont pretende voltar à Argentina em julho, por ocasião dos festejos do centenário. Isso, a convite das sociedades da aviação argentinas. Então, tornará a visitar o Iguassú. E volta a falar do prodigioso salto:
– Estou entusiasmado com aquilo! Pretendo mesmo escrever um livro sobre o Iguassú, e livro com muitas gravuras. Quando passei por Curitiba fui falar com o presidente do Estado somente sobre o Iguassú: pedir-lhe que se interesse pelo salto, o torne mais fácil e cômoda a excursão. Imagine que não existe nem hotel por aquelas paragens. Existe, com o nome de hotel uma casinha, com dois quartos e uma sala, apenas…
A conversa torna ao centenário argentino, que agora se vai comemorar brilhantemente no país vizinho.
– Que se pretende fazer para festejar o nosso? Nada até agora? – Pois na França, comemorações como essas começam a ser preparadas com dez anos de antecedência. Aqui, faz-se tudo à última hora, tão à última hora que até, freqüentes vezes, se adia a festa para dois anos depois. Segundo parece, o que vão suceder com o nosso centenário…
Santos Dumont cala-se. Compreendemos que está finda a entrevista. E de pé, já de chapéu na mão, temos ainda algumas informações: que por estes dias seguirá para o Rio, onde ficará uma semana ou pouco mais, tornando a São Paulo para aqui ficar até o princípio de julho. Em julho, partirá para Buenos Aires.” (Jornal O Estado de São Paulo – 11 de maio de 1916)


Texto transcrito na íntegra do jornal “O Estado de São Paulo”, edição de 11 de maio de 1916. Editado na revista Escrita, 42.