“Cuide de quem cuida de você”

Filhos de empregadas domésticas lançam manifesto pelo direito à quarentena das mães. Jovens também chamam a atenção para a relação trabalhista precária das profissionais da classe

‘Dona Conceição, arrumei outra pessoa para pôr no seu lugar, já que a senhora não veio mais, a minha casa tá toda suja porque as paredes foram pintadas’ ( Yasuyoshi Chiba/AFP)

Na última terça-feira (17), uma idosa de 63 anos morreu depois de ter sido infectada pelo novo coronavírus. Ela trabalhava como empregada doméstica para uma mulher, cujo resultado para o teste de coronavírus deu positivo após retornar da Itália.

A situação de quem continua a trabalhar mesmo diante da pandemia de covid-19 é a mesma da mãe de Marcelo Rocha, em Mauá, na região do ABC Paulista. Sua mãe é empregada doméstica e diarista desde o seis anos de idade, e por muitas vezes trabalhou doente para conseguir manter os compromissos financeiros.

“Mesmo falando sobre os riscos do coronavírus, ela não tem como faltar com risco de ser demitida. As domésticas estão correndo grandes riscos e também são uma grande possibilidade de contágio, principalmente nos transportes nas metrópoles”, afirmou Marcelo Rocha, em um relato divulgado na internet.

Ele é um dos filhos de empregadas domésticas que reivindicam aos empregadores, o isolamento social remunerado da classe, no movimento Pela Vida de Nossas Mães. Em um manifesto divulgado na internet, seguido por um abaixo-assinado, chamam a atenção para a relação trabalhista precária das empregadas domésticas e salientam para a emergência de atender à quarentena estipulada pelas autoridades.

“Há anos nossas mães, avós, tias, primas dedicam suas vidas a outras famílias, somos todas (os) afetadas (os) por essa “relação trabalhista ” de retrocesso e modo escravistas. Tivemos nossas vidas marcadas por esse contexto, que precisa ser repensado por toda sociedade, sobretudo, pelos empregadores”, afirmam no manifesto.

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De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de novembro de 2019, 6,356 milhões de brasileiros trabalham como empregados domésticos.

“As diaristas estão em situação ainda mais precária e vulnerável, sem contratos legais que possibilitem, por exemplo, negociar adiantamento de férias. Por isso, encontram ainda mais obstáculos em se manterem e garantirem a segurança de seu coletivo familiar, pois recebem por dia trabalhado”, afirmam os filhos de empregadas domésticas e diaristas no manifesto.

Diante do cenário, eles pedem a dispensa remunerada imediata de domésticas, com carteira assinada ou informais, e de diaristas; o adiantamento das férias em sua totalidade ou de forma parcial; e caso o empregado more na casa do empregador e esteja em grupo de risco, o mesmo não poderá ser colocado em situações de risco de contágio, como: ir a supermercados, farmácias, shoppings e demais espaços públicos, evitando assim, quaisquer tipo de aglomerações.

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“No meu caso, minha avó trabalhou anos em uma casa de família. Ela tinha seus 63 anos, chegava lá às 6h duas vezes na semana, depois passou a cozinhar, a passar, a lavar terraço… Ganhando apenas R$100, sem a passagem. Em janeiro, ela veio a óbito e a mensagem recebida pelo WhatsApp foi: ‘Dona Conceição, arrumei outra pessoa para pôr no seu lugar, já que a senhora não veio mais, a minha casa tá toda suja porque as paredes foram pintadas’”, afirmou Nicole Nascimento, de Japeri, no Rio de Janeiro, em mais um dos relatos dados no manifesto.

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Da página Brasil de Fato / texto: Caroline Oliveira