Despachando a velha

  –  Um conto de Silvio Campana  –  

 
Ponte-da-Amizade-Vao-Livre-640x426Rosário deixou no trato com ele esse jeito odiento de não se falar mais das coisas, com medo que possam saber. Prefere correr o risco de que o seja de maneira torta e deturpada. Pepe não é santo, mas também não tem porque pagar pelo que não fez. Tirando a velha, reduze-se aos dois, mais Papi e Papacho, aqueles que tinham, por conta da pequena história, a real dimensão de que se havia feito algo insano.
A verdade é que naquele dia, às sete, saíram todos em busca do começo dos fatos. Cada um a seu jeito. Ela, banho tomado, os olhos inchados pelo choro da véspera, acenou insistentemente da janela da casa. Foi só ouvir o barulho do carro e já estava a postos, debruçada na janela em oposição ao muro que sustenta a pequena garagem. E de lá, pedia que lhe dessem lugar na excursão.
Pararam o carro, deixaram o pé da velha para fora calçando a porta, enquanto procuravam adaptar um espaço no carro para que Rosário, a filha, também fosse junto.
Ainda de ré, o marido que saía para o trabalho, emparelhou o dele com o de Pepe. Baixou o vidro, fez o sinal da cruz, e agradeceu por tudo aquilo. Desculpou-se pela necessidade de cuidar de seus negócios intransferíveis naquela manhã e brincou com o Papacho que, afinal, vizinhos são mesmo como parentes. Em seguida, deu uns trocos pra esposa, recomendou cuidado na aduana e seguiu em frente. A morena quarentona terminou por embarcar em silêncio. Não deu nenhuma sugestão, nem foi contra nada. Então, agora, ela não pode dizer que a mãe merecia coisa melhor.
Prepararam tudo, inclusive, de ínicio, a forma e o que falar na passagem da fronteira. Contando assim, parece até que criaram uma pequena brincadeira de dizer algo para não ser pego com a morta naquela excursão bizarra expostos que ficariam aos olhos policiais na ponte.
Pepe no volante; Rosário no banco do carona, Papi e Papacho prensando a velha no banco detrás.
Setenta e três anos não é nada. Mas a asma, esquecida depois que casou, apareceu com a viuvez e complicou de repente. Dias e dias com aquele pigarro se misturando às notícias de receitas milagrosas que já haviam curado gente famosa. As provas estavam na internet. E a sororoca impondo-se aos boatos que iam e vinham no percurso entre a casa e a mercearia da esquina, onde Rosário ainda é caixa.
Falava-se muito em trabalho feito, praga de gente dissimulada, carma. Isso não sei bem. Quando o Pepe se reportou a isso, foi econômico.
O fato é que quando finalmente a velha faleceu, depois de duas semanas de incômodos para todo mundo, ele acendeu uma vela, limpou com mel a garganta e lambuzou com unguento de cânfora, limão e óleo de capivara, o peito. A mulher até reclamou de tanto zelo. Não fez conta. Vizinhos assim como nós, pensava, são pau para toda obra e não pega catiça que é de outro, não. Mas, pelo sim, pelo não, resolveu não dar mole ao azar.
Já passava das nove quando Pepe refez o mapa da estrada paraguaia mentalmente. Nisso teve ajuda de Rosário, que desfiava detalhes no banco ao lado entre um soluço e outro. À primeira placa indicando a proximidade da fronteira, parou o carro. Comentou de novo sobre a justificativa que ia apresentar na guarita que se avizinhava e acabou por aceitar a esperteza de Papi. Decidiu-se por só um aceno com a cabeça, se possível, para os guardas. Endireitaram com dificuldade o corpo da velha, colocaram o pacote de água e sal no colo da falecida e apostaram no silêncio. Lentamente, foram aproximando o carro da faixa que demarcava o funcionamento da cancela na aduana brasileira.
Tampada em parte pelo lenço na cabeça, outro tanto pelo ombro de Papacho, a passageira aparentava dormir. As mãos dispostas como se cuidassem do pacote aberto pelo Papi repousavam nas pernas. Enquanto o filho, guloso, leava uma bolacha à boca, querendo despistar.
O corpo, que agora viajava rijo, adoeceu sem que ao menos parecesse aos filhos e a todos que a viam, doença. É que a velha encrespou de viver assim, dando trabalho, corroendo a paciência, havia muito tempo. Então, mesmo com a tosse aumentando, a falta de ar, ninguém pensou o pior. A morte, porém, veio na madrugada fria de ontem e se alojou quietinha ao seu lado na cama para colhe-la.
E tão rápidas quanto o fim, chegaram as mesquinharias e a hipocrisia.
– Dela, vão ficar só as boas recordações. Ninguém fala mal de minha mãe – impunha uma das irmãs de Rosário ao velório improvisado naquela madrugada, antes da viagem.
Mas, aqui, no particular, esse mesma filha, eu soube depois, fez um verdadeiro assalto à pequena herança da velha e instalou uma discórdia familiar interminável. Isso é outra história e Pepe também foi econômico com o tema grana.
A vizinha estava bem pra alguém daquela idade. Por insistência dos filhos, chegou a ir ao médico e à casa de dona Elisa. O primeiro mandou tomar expectorantes e usar bombinha. A outra, com mais crédito, receitou folhas de ameixa em infusão com eucalipto. O pé ralo da ameixeira está hoje lá, depenado, poucas frutas, espalhando o sol em uma renda escura no areão do quintal.
Depois de uma semana, a curandeira entrou com caraguatá e espinheira santa, feito de hora em hora. Isso mesmo depois dos antiespasmódicos que o médico receitou por conta da complicação intestinal de tanto chá caseiro.
A tosse, no entanto, continuava.
O mate das cinco, com erva de São João para acalmar um pouco o espírito, passou a ter mais gente das redondezas, numa conversa que misturava culinária e memórias de outra época. Naquela cidadezinha não havia maldade e, se uma vida era mal falada, ficava marcada para sempre porque merecia, afinal. No meio da roda, cuia na mão, a velha badalava a língua venenosa, firme, autoritária, e até mostrava alguma recuperação.
Pepe até que se animou quando Rosário, numa escapadinha, já de noite, veio contar as novidades para ele que chegava ao portão depois do trabalho. Ledo engano, pois foi só mudar o tempo e a febre aparecer. Aí, foi piorando, piorando. Até que sabendo que ia morrer, a velha fez o seu último pedido. Tinha o desejo de ser enterrada na mesma terrinha guarani, onde havia nascido.
E aí, Paraguai, lá foram eles. Pepe, o vizinho, não teve chance de dizer não. Carro na garagem, ideia que veio feito faísca. O pedido foi feito ali, ainda no meio da reza e do espanto de terem encontrado a velha, finada. Ele aceitou e fizeram então como se não fosse nada. Para os outros moradores da quadra, disseram que iam assim, sem muita precisão, tentar uma visita ao Salto Monday, para novos ares. Depois, talvez, uma chegada à Caacupé, pela enorme evoção daquela anciã a “La Virgen”.
Pepe passou a mão na cabeça, tirou seu óculos escuro, desceu do carro depois do aceno inútil e enfrentou o guarda com a carteira de habilitação na mão. Usando autoridade, o guarda olhou preguiçoso o documento, olhou para todos dentro do carro e foi só um instante de suspense.
Daí, Pepe se colocou novamente na direção do carro com um só critério na cabeça, que era o de chegar ao povoado vizinho à Caaguazu ainda de manhã, aproveitando o resto da fresca da primeira metade do dia para enterrar o corpo da velha vizinha.
Atravessou a ponte da amizade, balançou a cabeça para o guarda paraguaio e estacionou depois de alguns metros. Chamou Papacho para o banco da frente. Atrás, apertou Rosário e Papi junto ao corpo, que agora já endurecia quase de todo. A defunta ia sentada com a cabeça prensada pelo vidro do lado esquerdo, o braço apoiado na cabeleira da filha. A perna, aquela que usaram para manter a porta aberta, estendida até depois do banco da frente, junto ao novo carona.
Enterraram a velha às onze, umas velas, uma reza, sem flor. Só com vontade de voltar e apagar do futuro as marcas grudentas da curiosidade da vizinhança.


SilvioCampana é jornalista. Texto publicado na revista Escrita 45. 

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