Diferente e Inútil

  –  Um toque de Richard Luiz de Souza  –  

 

reintegracao de posse em sao paulo2
Ilustração: deformação de foto onde estudantes paulistanos são reprimidos pelo pelotão de choque da polícia de São Paulo. Os jovens ocupavam um colégio público reivindicando qualidade na educação e protestando contra os desmandos com o dinheiro público em São Paulo. (foto: Zanone Frais/Folha)

É o sentimento sobre si mesmo de muitas pessoas nos dias atuais. Tristes dias.
Querem que estejamos adaptados e preparados para as “tarefas designadas”. Por quem, ninguém diz e nem pensa sobre.
Mas as pistas estão aí: um sistema desgraçado que diz querer garantir o direito do indivíduo, mas quer mesmo uma rês para abater fácil e usar até quando tiver utilidade.
E a competitividade e o “mérito” são ditos como ponto de partida para garantir a igualdade neste jogo.
Pura hipocrisia!
Como pode uma pessoa começar bem lá na frente com a maioria dos recursos necessários para trilhar seus caminhos plenamente  garantidos e outra que é obrigada a tomar decisões empurrada pela necessidade e pela tensão da vida que corre sobre um fio de onde se pode cair a qualquer momento…
Isso já seria desleal se já não se configurasse como imoral.
E o pior de tudo é que tem muitos jovens culpando-se por não conseguir adaptar-se a este circo chamado “sociedade organizada”.
“Não consigo arrumar emprego, não consigo passar numa boa universidade ou num concurso… Enfim não consigo orgulhar e ajudar minha família.”
Mas o problema não é a pessoa.
O xis da questão é esta opção suicida pelo indivíduo e pelo material que esta sociedade arrebentada fez tempos atrás.
Isto levou ao roubo dos nossos sonhos, os da nossa mocidade em especial. Por inexperiência ele se culpa por tudo de errado ou toma (des)caminhos que acarretarão um futuro de sofrimento para si e sua família.
Mas há os que lutam.
Por seus sonhos e em conjunto com seus camaradas da escola, do trabalho, da comunidade em que vive ou por outra questão social das muitas que existem para serem enfrentadas, como a discriminação em suas várias formas.
E é isso que traz ânimo. Uma juventude que não se acomoda e não aceita este lixo que jogam goela abaixo através da mídia que a tudo domina.
Elabora seus próprios meios de comunicação e formas de lutar pelo que quer.
E que pensa socialmente. No todo.
Não se pode desanimar ou auto culpar-se.
Você é não é apenas um danado isolado, mas tem outros que pensam da mesma forma e tem os mesmos questionamentos.
Muita coisa precisa ser mudada. E esta é uma responsabilidade especial para aqueles que se dizem “conscientizados”.
Muito precisa ser feito; muito balde deve ser chutado.
E esta é uma tarefa que o jovem tem mais capacidade para fazer. As pessoas que estão aí há tempos já não servem. Estão viciadas. No poder, no dinheiro e não mudarão nada.
Resta retomar os sonhos e as saídas alternativas.
O resto tem que ser triturado.
E, não. Você não é inútil e diferente. Apenas tem sonhos e formas diferentes de ver as coisas. E o caminho é difícil porque não querem facilitar para a maioria mesmo.
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Richard de Souza, operário, dekassegui no Japão. Texto publicado na revista Escrita, edição 42.

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