Diproma de poeta

  –  Uma crônica de Sergio Vaz  –

Se nada der certo, seja poeta

 
Como a poesia não pode parar, fui promover um sarau com a turma do EJA Modular na Escola Aracy, em Taboão da Serra, numa parceria com a Secretaria de Educação, e intitulada “Caminhos poéticos da educação”. E que vem se juntar com os saraus nas escolas que faço às terças-feiras.
Fico muito feliz quando vou falar de poesia para esses alunos, primeiro porque acho que voltar a estudar depois de tanto tempo longe da escola exige muita coragem, além de muita humildade e disposição. Porque se a gente analisar friamente é muito mais fácil ficar em casa assistindo novela, jogando baralho no bar, ou simplesmente vendo o tempo passar. E o tempo passa. Mesmo se você, ou eu, escrevê-lo com “N”, ou com “M”.
Dizem que para ser alguém na vida é preciso um ou vários diplomas, coisa cm que eu não concordo muito. Lógico que não sou louco de ser contra o canudo e acho que todo mundo na periferia devia ter condições de estudar em uma universidade para conseguir um, e sei que é fundamental a gente ir além do que o ensino médio, mas, para ser alguém na vida de verdade, a gente devia conquistar também o conhecimento. E se ele vier acompanhado de um diploma, então…
Medicina é uma profissão tão digna quanto Funilaria, por isso devemos ter muito cuidado quando falamos algo sobre “vencer” na vida.
Diploma tem a ver com estudar para as provas e conhecimento, com estudar para a vida, e não termina nunca. Por isso, acho que os dois deveriam vir juntos; assim, quando a gente se sentasse numa roda para trocar ideias, a gente não falaria só das nossas profissões. Não existe nada mais chato do que um profissional, seja ele de qualquer área, exercendo sua profissão na mesa do bar.
Conheço poeta que não lê, jornalista que não gosta de notícia, médicos sem remédio, professores que não estudam justamente porque acham que se formaram, como se sabedoria se medisse por grau ou degrau.
Ninguém sente saudade do histórico escolar, mas das histórias dos tempos de escola, da faculdade. Do recreio, dos professores, dos amigos, do aroma indescritível da infância e da adolescência. Só por isso, já vale muito a pena estudar.
Uma senhora, uma vez, me disse com um sorriso e uma dignidade divina estampada no rosto que tinha vontade de estudar porque não queria morrer sem saber ler nem escrever, pois tinha medo de chegar no céu e não conseguir ler as placas que indicavam o caminho a Jesus. Não disse, mas pensei, que se alguém quisesse encontrar algum tipo de deus, qualquer um, devia segui-la. Pessoas humildes acendem luz no fim do túnel.
Diploma e conhecimento, por falta dos dois me tornei poeta, que é a forma mais bela que achei para dizer que sou analfabeto.
_______________________
Sergio Vaz, poeta brasileiro. (Texto de maio de 2009. Publicado no livro “Literatura, pão e giz”)

Arquivos

Categorias

Meta