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Doces da reforma agrária

Jovens assentados produzem chocolate com cacau orgânico no sul da Bahia. A iniciativa na Fábrica Escola do Chocolate Litoral Sul tem mostrado que é possível manter a juventude no campo

Grupo de mulheres fazem o doce de jenipapo. / Diangela Menegazzi

A riqueza do bioma da mata atlântica e da vida em comunidade das 55 famílias do Assentamento Terra Vista, no município de Arataca, Sul da Bahia, é revelada, diariamente, por meio da sinfonia dos diferentes pássaros, dos diversos tons de verde da paisagem, do som do vento nas copas das árvores e das crianças, que brincam de bola, pega-pega e capoeira ao ar livre.

A prosperidade vivida no Assentamento só foi possível por meio da luta e do trabalho de mulheres, homens e jovens. A ocupação das terras ocorreu, simbolicamente, em 8 de março de 1992. Após três anos de luta, os trabalhadores conseguiram transformar a antiga Fazenda Bela Vista – área degradada -, em assentamento rural. As famílias começaram o processo de transição agroecológica no ano 2000. Em 2019, estão implantadas 40 áreas de agrofloresta e o cacau cabruca é o fruto central do cultivo, realizado pelos trabalhadores assentados.

Os sistemas agroflorestais são ambientes em agricultura e criação de animais combinados com as florestas. “Eles proporcionam um meio de agricultura sustentável, que não agride o meio ambiente, produz alimentos, remédios, recupera áreas destruídas, desenvolve a interação entre todos os seres e promove qualidade de vida para todos que usufruem do sistema”, define o técnico e tecnólogo em agroecologia, Sálvio Oliveira.

É nesse contexto de luta pela terra e cuidado com as pessoas e com o meio ambiente que jovens e mulheres tem o desafio de assumir o protagonismo no Assentamento, para que o desenvolvimento sustentável do local associado à perspectiva de construção de uma nova sociedade não se perca.

Beneficiamento de produtos

Uma das perspectivas para manter os jovens na terra e contribuir para maior autonomia das mulheres é o beneficiamento de produtos, como já ocorre atualmente com o chocolate e os doces, licores, fitocosméticos e fitoterápicos.

As matérias-primas utilizadas nos produtos são cultivadas e beneficiadas pelos trabalhadores, na área de 904 hectares. O chocolate é preparado pelos jovens do assentamento na Fábrica Escola do Chocolate Litoral Sul. Já os processos de descascar, cozinhar e embalar as frutas e extrair das plantas óleos e essências são realizados por um grupo hoje formado por sete mulheres.

O resultado desse trabalho, inclusive, estará exposto para comercialização no fim deste mês, entre os dias 25 e 27, na 5° Feira Estadual da Reforma Agrária, na Praça da Piedade, em Salvador. O evento levará para o centro da capital baiana produtos e produtores dos assentamentos e acampamentos de todo o estado da Bahia.

Protagonismo jovem

O preparo da juventude para cuidar dos produtos da terra, na perspectiva de construção de uma nova sociedade, é um processo ainda a ser consolidado. A formação em andamento tem revelado o vasto e rico campo de potencialidades humanas. Desde 2015, os jovens assentados estão a frente da Fábrica de Chocolate. A iniciativa tem mostrado que é possível manter a juventude no campo.

Os jovens utilizam o cacau orgânico do Terra Vista e de outros assentamentos da região no preparo de chocolates de alta qualidade, que tem agradado o paladar dos consumidores, como o da chef vegana Sandra Guimarães, 37. “A primeira vez que comi o chocolate Terra Vista foi em agosto do ano passado. Eu estava visitando o assentamento e pude ver a plantação de cacau, as amêndoas secando e até visitei a fábrica. Provei o chocolate 70% e achei o melhor que já provei no Brasil. Espero poder encontrar o chocolate Terra Vista em vários lugares do Nordeste, porque é um produto excepcional”.

Anualmente, o chocolate Terra Vista é levado ao Salon Du Chocolat, evento que acontece todos os anos em Paris e outras capitais mundiais.

Por causa da experiência na Fábrica, os irmãos Jairlan Silva Santos, 16, e Jayne Silva Santos, 19, já vivenciam e visualizam o futuro na profissão de chocolatier. Emilly Assunção Santos, 19, também reflete como os colegas. “Quero sair pra fazer curso, aprender mais sobre a área… Penso em fazer administração por conta da fábrica, mas sempre voltando pra cá. Vejo um futuro aqui dentro. Tem muitas pessoas que não se identificam com o trabalho na roça, acho que a fábrica é uma das portas que se abrem pra gente”, diz Emilly.

O jovem Daniel de Lima Santos, 19, identifica-se com o cultivo da roça. Ele faz o manejo da agrofloresta de cacau e planta duas hortas de leguminosas. Junto com a mãe Nilzete e com os irmãos Adriana e Giovani, eles entregam duas vezes por mês 200 quilos de alimentos livres de agrotóxicos para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Incansável, o jovem afirma que a expectativa do futuro é continuar a vida e o trabalho no Assentamento. “Não gosto de trabalhar pros outros”, explica. Ele tem a preocupação constante em melhorar o cultivo. Há cerca de um mês, depois de frequentar um curso de capacitação, Daniel começou a fertilizar o solo com microrganismos eficientes (E.M, na sigla em inglês), ajudando no combate aos insetos de sua plantação e na qualidade das leguminosas.

Atualmente, Sálvio Oliveira, 31, é um dos responsáveis pela formação profissional da juventude do Assentamento. O professor já esteve sentado nas cadeiras do Colégio Milton Santos – centro de educação profissional construído dentro do Terra Vista. A história de Sálvio, com vasta experiência na implantação e manejo agroflorestal, se confunde com a do próprio Assentamento. Ele nasceu quando as terras ainda eram da Fazenda Bela Vista. Em 1992, o pai dele se uniu aos trabalhadores e trabalhadoras na ocupação da área. Mas, em 2007, Sálvio trabalhava na construção civil quando retornou à terra natal, e não mais saiu. Nesse processo, ele se tornou referência dos saberes técnicos e do campo.

O professor constrói o conhecimento junto aos jovens do assentamento, dentro e fora da sala de aula. Ele explica os aspectos do vivido. “É muito complexo o que fizemos aqui. Pegamos uma área totalmente degradada, sem planta nenhuma, e agora está totalmente reflorestada. Hoje, estamos tendo a nossa soberania, nos sustentado e preservando ao mesmo tempo. E isso foi feito com muito trabalho e pesquisa participativa, com jovem, adulto, criança e idoso”, analisa Sálvio.

Mulheres unidas

O grupo de mulheres se vê diante de grandes desafios, desde a estrutura para a fabricação dos produtos até a necessidade de formação na perspectiva de gênero. Por isso, elas insistem em se manterem unidas e produzindo. Andreia Simões Pereira, 39, e Valdeci Conceição Dias, 64, acreditam que a união é necessária. “O grupo também é uma forma de a gente se integrar e fazer algo coletivamente”, ressalta Andreia.

Além dos doces e licores, Aniele da Silva Silveira, 28, faz fitocosméticos e fitoterápicos com as coletas realizadas na natureza do Assentamento. Os produtos incluem de protetor solar a óleo de massagem para dores musculares. Para ela, o trabalho resulta em saúde e longevidade, além da renda.

Para a assentada Nilda da Silva Bonfin, 53, a construção da nova sociedade no Assentamento será possível, somente, se a organização das mulheres estiver contemplada. “Nossa luta não é só pela terra, mas pela construção de um novo homem e de uma nova mulher. Minha preocupação é como vamos organizar as mulheres garantindo a elas a sobrevivência e a participação nas discussões políticas e organizavas dos assentados. Precisamos aliar cada vez mais produção e formação”, avalia Nilda.

Para o assentado e fundador do Terra Vista, Joelson Ferreira de Oliveira, 58, o futuro da região tem de ser organizado pelos movimentos sociais. Ele mantém a expectativa de união dos trabalhadores rurais, indígenas, quilombolas e o MST. Segundo ele, todos precisam se juntar em torno do projeto de recuperação de 200 mil hectares de cacau cabruca e da implantação de sistemas agroflorestais na região, com o potencial de vincular, inclusive, os 21 países da América Latina produtores de cacau. “A saída para isso está em nossas mãos, mas precisamos deixar o imediatismo de lado e pensar a longo prazo”, afirma.

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Do Jornal Brasil de Fato / Texto: Diangela Menegazzi. Com a colaboração de Rafaela Oliveira

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