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Educar-me-ei se educo. Texto de Tathiana Guimarães

“…Pensar, sentir, ouvir, compreender e se expor…”

 

Imagem editada a partir de fotografia de Tathiana Guimarães.

– Caíque, vamos dormir? Mamãe tá cansada, e já passou da hora.

Deitamos juntinhos. E o Pequeno rola de um lado para outro. Puxa coberta, .. resmunga. Coça a cabeça. Me abraça. Tira o braço. Põe a perna para dentro da coberta. Tira a perna para fora. E num pulo, senta na cama e exclama.

-Não consigo dormir!

-Aff, Caíque. E agora? Me deixa dormir! Fecha o olho, fica quieto e conta carnerinho até 100, que você dorme.

– Não mamãe, isso é chato. Tenho uma ideia melhor. Vou por música. A música da minha escolinha.

– A não Caíque, não inventa moda.. Assim você não vai dormir nunca mais.

Enquanto eu cobria o rosto com a coberta, já esperando o pior, ele levantou da cama, abriu o notbook, entrou no youtube, ligou o microfone e solicitou: A MÚSICA DA ESTRELINHA. E num lapso de dois segundos, o quarto foi preenchido por um instrumental calmo, clássico, e extremamente relaxante.

– Pronto mamãe. Agora vamos descansar. Esta musica é maravilhosa. Mas antes, você precisa me dar um beijo e um abraço de boa noite. E dizer que me ama.

Na mesma hora suspirei meio impaciente, abri meus braços, dei-lhe um abraço apertado, um beijo no rosto e desejei boa noite. Ele mais que depressa, deitou na cama, ajeitou o travesseiro, respirou fundo, bocejou e antes de 30 segundos…. dormiu.

Caíque tem 5 anos. Com esta singela e cotidiana experiência, consegui ver a essência do que pretendia retratar sobre um problema muito grande que estamos enfrentando: O debate sobre a Educação.

A Educação não é apenas algo que se ensine, mas algo que se aprenda no processo de comunicação, de troca, transmissão do conhecimento e convivência! É escutar. Analisar, e buscar recriar formas de abrir janelas de pensamentos, que possibilitem o prazer do entendimento e da participação sobre os raciocínios.

Aquele vulgo e energizante – EURECA!

A instrumentalização livre do pensar e de sentido no fazer, acolhe e gera possibilidades, que se encontram como ferramentas dispostas no trabalho da inteligência, individual e em consonância no encontro de terceiros. É um processo de socialização. Ela não tem dono e nem rei. Se assim o tiver, ela deixa de ser, e confunde-se com um processo de castração autoritário e mote de profunda desconexão e infelicidade.

Se tivesse obrigado Caíque a reproduzir o que eu aprendi, a contar carneirinhos, o que teria lhe causado? Contrariedade, choro, irritabilidade, tédio, sentimento de desamparo, solidão, abandono? Parece exagero, mas talvez eu mesma tenha sentido isso quando me via sozinha, com a casa em silencio, apagada, assombrada pela necessidade de dormir sem conseguir. Quando me via ignorada na minha capacidade de recriar a situação e ambientes sob a ótica que já vislumbrava em soluções.

Ouvi-lo me deu a chance de me reeducar, e poder concluir o que considero minha obrigação, educa-lo. E como parte da educação, disciplinar a hora de dormir.

Vivemos hoje um conflito que nos abre para essa possibilidade. Estamos vendo a educação nos últimos anos enfrentando processos de silenciamento e reagindo de forma gritante.

Começa na relação do Estado para com o professor. Reproduzindo este ensinamento, do professor passa para os pais. E no âmbito mais frágil, a mesma dinâmica, submete o mesmo ordenamento aos alunos. A lógica do mandatário. Manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Se sabemos que a educação é um processo de socialização, e estamos vendo nossa sociedade em risco no seu processo fundamental dada a pandemia e isolamento social, como critério de vida, em nossa capacidade criativa, o que poderíamos fazer?

Escutar. Uns aos outros. Dialogar. Abrir nossa mente sem julgar a capacidade divergente de buscar as devidas soluções, desarmando tanto o silenciamento, quanto os gritos que colocam as dificuldades inerentes, umas a cima das outras. Cada uma destas refletirá as partes contrariadas, abandonadas, e canceladas em sua capacidade de participação.

A ausência deste canal de comunicação tem desnutrido professores, que na sua busca por sobrevivência, desnutre alunos, desnutre os pais, e desnutre a sociedade como um todo.

Sem a reconstrução dos canais de consideração as partes envolvidas, nossos sistema imunológico ficará a mercê não apenas deste vírus, mas de tantos outros que desmantelam nossas instituições e elos colaborativos.

Pensar, sentir, ouvir, compreender e se expor. Para voltar a pensar, ouvir, compreender e reportar soluções dignas da complexidade de necessidades do direito a se conectar a educação e a vida.

 

Tathiana Guimarães é cientista social em Foz do Iguaçu, Pr. Coordena a Fundação Nosso Lar. 

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