Ela – Oceano Selvagem

Um conto de Giane Lessa

E sem ter onde pisar, naquela iminência do desequilíbrio, ela pisou a chuva.

Era um dia daqueles que Ela precisava debater-se sobre si mesma. Era um dia daqueles que Ela precisava gritar para sentir-se viva e capaz de tudo. Então Ela gritava, atirava ao chão tudo o que via pela frente. Perturbava, e desalinhada, Ela tinha o poder de tirar tudo do lugar quando bem entendia. Talvez, esta intensa discrepância a fizesse sentir-se viva, dona de sua vida. Talvez, ela precisasse espernear dentro de si num exercício contínuo de desarticulação com seu passado tão crucialmente impresso na finura da sua pele. Aquele passado que a deixava em carne viva, vísceras à mostra, renovando a cada dia a epiderme jamais restaurada. Era aquele um exercício perverso em direção a si, aprendido, adotado e sistematicamente renovado em dores que se espraiavam como ondas firmes de um oceano selvagem.

Naquele dia, Ela decidiu superar-se. Naquele dia seu grito foi mais agudo, mas perfeito, mais límpido. A criança mal sabia que o corpo não só expele, mas absorve, aspira e traga. Mesmo quando a musculatura interna devolve incessante, o corpo é capaz de ceder. E o corpo em formação tragou, aspirou e absorveu aquele tubo, acompanhado de berros, tão assustadores quanto capazes de estabelecer um laço tão mudo, tão comum entre as duas. A criança teve seus ossos dobrados. Mais do que os ossos, sua integridade foi colocada à prova, sua flexibilidade foi estirada pela força de tantos cavalos. A criança se dobrava como seu nascimento não fora capaz de anunciar. Naquele dia ocorreu um lapso. O desespero empapado de sal úmido misturou-se com o sono. A memória tratou de colocar um ponto final ali, onde a agonia da traição não suportava continuidade.

Ninguém falou mais sobre os cavalos, ninguém falou mais sobre a culpa. Esta, encarregou-se de desdobrar-se em mais dissonâncias. Unidas pela desarmonia, as duas tratavam de equilibrar-se numa corda com o abismo que diariamente as observava sossegado lá de baixo; despenhadeiro cínico que as esperava pacientemente e narcisista para alimentar suas demandas de quedas, tropeços, deslizes e desequilíbrios. Ninguém falou mais sobre a reminiscência, cuidadosamente guardada, da vergonha produzida por tal impetuosidade. Ninguém falou mais sobre o assalto. Nem mesmo Ele foi capaz de proteger a criança. Nem mesmo Ele, tão preparado, tão forte, tão compreensível, foi capaz de resolver aquela equação. A vida ria-se, divertia-se com a inutilidade de toda ciência. A vida, tão maior, burlava-se do conhecimento. A vida, tão humana, não economizava em astúcia.

E sem ter onde pisar, naquela iminência diária e prolongada do desequilíbrio, a criança pisou a chuva. Não qualquer chuva. Ela pisou a tempestade, o vendaval, lanhada pela poeira suja violentamente levantada do chão. Sem retorno, a criança esvoaçada pelo temporal, voava como voam guarda-chuvas. Desprevenida, dentro da suculenta e assediante Natureza Humana, assim também se humanizava, assim se preparava para a Vida. Aprendia a desobedecer de diferentes formas, principalmente quando era obediente. Também aprendeu a desorganizar-se mesmo e sempre quando seu cérebro clamava por organização. Essa aprendizagem foi um desacerto que custou-lhe a Vida e devolveu-lhe a vida. Mesmo e no entanto, a Vida era tão transbordante dentro de si que irrompia incontida, mesmo quando sabia que devia escondê-la. De tal modo se apresentava tal incontinência, que à criança não lhe restou mais nada que habitar a dúvida.

Lá, no fundo escarafunchado de seu mais interior, lá muito dentro de si, percebeu que através de chapas de aço, revestidas de filigranas, amalgamadas por uma fragilidade surpreendentemente resistente, alguma coisa de inquebrantável se havia preservado. Alguma coisa de sangue e bruma. Alguma coisa nativa e ao mesmo tempo produzida e fortalecida pelo deslocamento comovente de si. Alguma coisa de resto e ao mesmo tempo de constituição. Alguma coisa que por falta de uma palavra melhor, por falta de uma palavra adequada – para um ser tão moldado por um sentimento profundo de inadequação – talvez, por falta de outro nome – insisto – possa chamar-se Amor.

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Giane Lessa é tradutora, poeta, doutora em Memória Social e professora universitária. Atua em Foz do Iguaçu, Pr.

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