"Em Mundo Tecido"

  – Um Conto de Matheus Mendes  –  

conto_matheus– Você não ouve absolutamente nada? – perguntou-me, estendendo diante de meus (não-) ouvidos o ponto de interrogação para a mais óbvia oração de resposta.
– Não. Nada a não ser o som da sua voz – respondi, com afeto pulsante a cada sonora sílaba.
Os olhos cor-de-pérola imediatamente se inundaram. Não houve, porém, cachoeira. Ela era, ainda, como uma muralha de força que não podia evitar, mesmo que fosse seu paradoxal desejo, dados os frequentes momentos de cegueira à alegria. Continuou a me observar na negritude, as pupilas focadas na escuridão, enquanto eu, imóvel, deslocava-me por dentro de seus pensamentos. Conhecia-os. Todos. Era detentor de todas suas surdas paixões e mudas esperanças.
Calaram-na antes mesmo do primeiro choro. Seu primeiro respirar foi sufocado pela destruição de seu destino, quase como se assassine o próprio acaso. Fizeram-na dançar no vórtice de seu próprio silêncio por muito tempo, até que o infinito de sua calidez se transformou em irreversível não-ser.
Era poeta, pois não conhecia as palavras.
Não reconhecia as formas nem as nuvens. Era, pois, sonhadora.
Antes que ela fosse embora, trocamos mais algumas significâncias. Não que houvesse algo sobre ela que eu não reconhecesse, mas como minha Criadora, ela própria não me conhecia por completo. Meus olhos, diferentes dos dela, porém, eram abertos às cores. Branda era minha cegueira, pois só enxergava o que a fazia palpitar com o tato. De visão disforme eu fui criado e tive de pintar os seus vários mundos com puros tons dos quais ela ainda se lembrava. A escuridão a atingiu ainda pequena, talvez aos sete.
– Como é a minha voz? – perguntou-me, agora como criança.
E suspirou. Dessa vez, sabendo do inevitável desfecho, ouviu seu próprio choro, que ecoava por dentro de seu peito como se o pôr-do-sol.
– Eu diria que é agridoce, se alguma coisa pudesse provar.
– E não pode?
– Tenho em mim todos os seus sabores. E todas as luzes as também. Mas diante dessa minha fraqueza, oposta ao teu tato forte, nada sinto. Não que eu queira sentir. Deve ser estranho esse gosto de final.
– É – e riu, mesmo em meio às salgadas dores.
Desviei meu olhar. Pois se eu sentia o sofrer, ela também o fazia, talvez com intensidade não compreensível para algo apenas imaginário. Ao contrário dela, nasci com sua voz. Nasci para sê-la. Existo, e não vivo, para me arrepiar com seus timbres.
– Como é minha voz? – repetiu uma última vez.
– É bela por demais para soar.
– Ainda consegue me ouvir? – perguntou, fechando os olhos.
E meu mundo foi aos poucos se escurecendo. O dela já era trevas há muito. Entramos, juntos, no desconhecido.


 
Matheus Mendes é estudante de Medicina, na Unila, em Foz do Iguaçu, Pr. Conto publicado na revista Escrita 41.

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