Equinócio de outono

Uma crônica de Marianna Camargo

Imagem: Sara Facio / Frase: Jorge Luis Borges
(Jorge Luis Borges en Buenos Aires)

O primeiro dia de outono imprimiu suas matizes. Vento forte, folhas amareladas no chão, o céu carregado de cinzas e azuis. Nas ruas encontro, por acaso, pegadas de Julio Cortázar e Jorge Luis Borges. Como se fosse uma sina, um sonho, uma espécie de alento quando chega um amigo distante. Um sopro do futuro colado aos ares do passado.

Passo pelos turbulentos dias portenhos. Não há como não lembrar no título “Fervor em Buenos Aires”, o primeiro livro de poesia de Borges, do ano de 1923, que me traduz: a melancolia interna com a efervescência da superfície.

Vejo todas as cicatrizes da história: a luta viva e permanente das mães da Praça de Maio, a convicção da dor transformada em palavra concreta, que bate todos dos dias à porta dos que se calaram – como se o silêncio pudesse esquecer a perversidade.

Percebo nas aliterações da cidade o ritmo preciso e alto de todas as vozes. Pulsa, como um coração aos pulos.

A arquitetura, outrora monumental, sofre o abandono, todavia com elegante decadência. Há algo que se apaga nas esquinas, mas há luz entre as calçadas, há espelhos que refletem as imagens que passaram e as que continuam ali. Mimetismo surrealista, concreto e palpável.

Há, sobretudo, um céu imensamente azul, que faz lembrar que o rio tem a cor prata, que os passos marcam a história, que as cores mudam como se tivessem um temperamento. O sol incide com mais força nos hemisférios, os dias e as noites têm o mesmo tempo. Ocorre, neste momento, a mudança da estação. Equinócio de outono.

A estante onde estavam as louças quebrou, os pratos espatifaram-se no chão. Sobraram apenas alguns talheres, suficientes para o longo dos dias. O retorno veio carregado de dúvidas, verdades e poemas. Algo, sob a pele, está diferente. Violentamente doce.
Mirar. Volver. Insensatez.

A paisagem inverteu-se. Como um sonho.
O vento sopra e ouço o som de Cortázar, que me diz, em voz baixa: “o mistério está sempre entre as coisas”.

A música ensaia o movimento das ruas, o silêncio invade a noite. A similaridade das palavras se amalgama, embora com significados bem diferentes. Estranho e estraño.
Já sinto saudades, palavra intraduzível em qualquer idioma.

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Marianna Camargo, jornalista, escritora e poeta.

Texto reproduzido da coluna da autora na revista Ideias – maio de 2016.