Era outra vez um clichê

  –  Uma crônica de Maria Cristina Nadai  –  

Nasci, como todos nascem e fui vivendo, cada dia uma página, às vezes rasurada, outras censuradas, e não se deixe levar, a censura era mais por medo do pensamento, que por safadeza. Oras, eu sempre fui uma moça de família, berço burguês, de tradição europeia. Brasileira? Só pelo acaso do destino e um navio cheio de imigrantes, sim, era assim que pensava. Quem nunca se deu ao luxo de ser presunçoso ou arrogante pelo menos um dia na vida? Pecado da nossa natureza humana.

Eu fui crescendo e como dizem por aí, bela, nada recatada e não era de uma lar só. Passei a viver do mundo, sugando dos néctares de muitas fontes, sofrendo, lendo, vivendo, tocando, cantando, escrevendo, sempre em movimento, não era contínuo, mas definitivamente um movimento, fui contra golpe em país vizinho, defendi as causas menores e vi a a face do patriarcado enfurecer-se diante de minha ‘rebeldia’. Quem da burguesia, cego por natureza, massa de manobra dos ‘nobres’ bancos do mundo, abdicaria desse título para viver do bom, eu digo que é bom, mas, de repente, é o meu bom. Vou abrir um pouquinho, meu bom é arte, é cultura, é sons e crendices, é da base da humanidade, do abraço sincero e aquele cafezinho, huuuum, sinto até o cheiro da água fervente se unindo ao pó do grão torrado e recém moído.

Eu fui fazendo, fui sendo, crescendo, vivendo, cheia de gerúndios e conflitos, nada muito pessoal, era mais uma discussão dentro do tico e teco para tentar entender a complicação simples que é esse mundo. Voltando, quem abdicaria dos favores burgueses ou se rebelaria contra os mesmos? Bom, se pensar um pouquinho, Gil, Caetano, Chico, Elza Soares, Frida Khalo, tantos outros, que os nomes já me fogem a cabeça. Mas e eu, aonde é que eu fico nessa história? Mais uma, entre tantas outras que se deu conta que rebeldia faz parte da vida de quem é realmente vivo, de sangue pulsante e alma vibrante.

Acabo por me chamar ‘Clichê’, porque no final de toda história, feliz ou triste, curta ou longa, o que a gente sempre gosta, é daquele bom e velho clichê.


Maria Cristina Nadai é estudante universitária em Foz do Iguaçu, Pr. Texto publicado na revista Escrita 43.

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