Escolho meus amigos pela pupila

  –  Um poema de Oscar Wilde  –

 

 

Escolho meus amigos não pela pele
ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que tragam dúvidas e angústias
e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco!
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças
e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo,
quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim:
metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade
sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto;
e, velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois ao vê-los loucos e santos,
bobo e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei
de que a “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

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Oscar Wilde, escritor irlandês (1854-1900).
Fotografia de Jéssica Lima, estudante de História em Foz do Iguaçu..

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