Espelho desnudo

Um texto de Fabiula Wurmeister

Quando criança, não sei bem em que época, ouvi uma história que me impressiona até hoje. Fico pensando em como aquilo tudo terminou, que fim levaram aquelas pessoas… igual a estes filmes que, a gente tem certeza, farão parte de uma série, mas por algum motivo, ficam apenas no primeiro episódio.

Falava de amor, de harmonia, de pessoas felizes, de individualidade, de convivência. Mas, apesar de parecer uma historinha suave, descrevia também situações das quais procuro fugir. Nunca tive caminho, sempre vi pela frente um horizonte amplo, livre para qualquer lado que se olhe. Por isso, aquleas cenas me intrigam a cada lembrança.

Durante o dia, as pessoas desfrutavam de uma vida alegre, passeios, trabalho, encontros, contemplações, cumprimentos sempre muito bem respeitosos. Tudo sob a guarda do sol, aquele que ilumina, desvenda. Ao entardecer, todo se recolhiam.

Sem energia elétrica ou geradores, a luz da vela indicava o caminho, o lugar do objetos, possibilitava a leitura e as reuniões em volta da mesa.

Dada a hora certa, quando a vela marcava dois terços, como se tivessem um compromisso inadiável, se recolhiam aos quartos. Não, não apenas parecia. Todos tinham sim um compromisso inadiável. Sorrateiros, no tempo em que o sono é mais profundo, deixavam a vida correta e direta – que levavam durante o dia – para se portarem de outra maneira.

Sentindo-se protegido pela escuridão, lançavam-se as próprias vontade. Todos os dias. Pouco antes de amanhecer, como que por encanto, o transe era desfeito. Preparavam-se para encenar a vida que escolheram ser a mais apropriada. Quem os visitava, ou mesmo eles próprios, acreditavam ser o melhor que poderiam fazer. Nem ao menos chegavam a contestar. Aquela era a verdade.

Certa noite. Lua cheia a pino. Desejos abafados durante o dia, eram então aguçados. Mas, aquela luminosidade poderia colocar em risco a fuga noturna. O que fazer? A necessidade conseguiu ser maior que qualquer receio. O clima estava diferente. Algo estava por acontecer, no entanto, ninguém sabia o que. Chegada a hora tão esperada, a mesma rotina se cumpriu.

Fantasias e realidades se confundiam. Satisfação e vontade reprimidas. Todos na mesma mesa até se fundirem em um único sentimento: o de liberdade. Até que tudo ficou diferente, assim mesmo, de repente.  Sem que ninguém esperasse, o dia começou a amanhecer. Na ânsia por voltar a encenar os próprios papéis, sem pensar, deixaram os esconderijos. Na rua, de frente um para o outro, a nudez em espelho. A hipocrisia evidente.

Relembrando agora a história daqueles tempos. Mesmo sem saber o fim, fica claro que são poucos os preparados para o choque, para a revelação, pouquíssimos, como nós, privilegiados em um mundo sem muitas regalias. “Procure e encontrarás”, dizem as escrituras. Não as sagradas, mas as condenadas, listadas no índex. Ritmos desarmônicos de um Beethoven incompreendido”.

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Fabiula Wurmeister é jornalista em Foz do Iguaçu, Pr.

Texto publicado originalmente na revista Escrita 3, em 2005.