Eu quero me ver na tela

  – Uma crônica de Fiama Heloisa  –  

fiama1“A representatividade mudou a minha vida,
me aproximou dos meus semelhantes,
me fez descobrir a minha beleza e entender porque ela causa tanto estranhamento”

Era uma quarta-feira comum, cheguei no serviço por volta das 8h. Repórter de TV há quase um ano, fiz o que era de praxe: verifiquei o quadro de pautas para confirmar as atividades do dia.
Às 8h30 tinha uma pauta para cobrir. O assunto muito me interessava – lançamento de um documentário sobre a transição capilar de mulheres de cabelos crespos e cacheados, porém aquela pauta me caiu no colo por acaso. Inicialmente, não era para eu ir lá, mas a vida tem umas coisas surpreendentes. E lá fui eu gravar.
Por ter um pouco mais de tempo, pude acompanhar a exibição completa do documentário. Durante pouco mais de 30 minutos, diferentes meninas apareceram na tela para contar suas histórias. Histórias diferentes que se cruzavam em um mesmo ponto. Agora sorridentes e confiantes, elas lembravam da infância, de fatos marcantes ocorridos em relação aos seus cabelos, do momento em que se olhavam no espelho e não conseguiam se achar bonitas, da busca por serem algo que parecia o adequado (já que elas não o eram, ou melhor, diziam para elas que elas não eram), o belo, da tentativa de se encaixar em um padrão que muito cruelmente a sociedade nos impõe – baseado no padrão branco e europeu de beleza.
Naquele momento, ao ver tudo aquilo, ouvir todos aqueles relatos, eu voltei no tempo. Eu voltei a ter 11 anos, lembrei das vezes em que os colegas de sala, pelas minhas costas, colocavam canetas em meus cabelos – que nessa época só ficavam presos – e, rindo, me perguntavam por que as canetas não caiam. Recordei-me dos apelidos…ah, os apelidos! “Neguinha do cabelo ruim”, “Neguinha do cabelo duro”.
Foi então que eu me reconheci, me reconheci nas outras meninas, me reconheci naqueles belos cabelos cacheados, crespos e armados, nos medos e nas inseguranças, nas certezas e nas alegrias que elas tiveram ao assumir quem de fato são. Foi, então, que me senti REPRESENTADA. Ao longo de toda minha adolescência isso nunca aconteceu. O meu cabelo era diferente do de todas as outras meninas e não estava em capas de revistas, os cabeleireiros não sabiam como lidar com ele e só me sugeriam que fizesse uma progressiva, o volume tão intenso me incomodava, meus lábios e nariz grossos também…
Ao lembrar de tudo isso, uma outra memória muito forte veio a minha mente: quando cheguei à Universidade. Ver negras e negros ocupando o espaço, ainda que de maneira irrisória, com seus lindos e poderosos cabelos black, me fez entender que existiam mais pessoas como eu, que a estética imposta não era a única, que os meus cachos e o meu volume também podem e devem existir.
Com tudo isso, voltamos a uma palavra já citada: REPRESENTATIVIDADE! Ao contrário do que pensam alguns, não é “mimimi”. Se desde pequenos meninas e meninos puderem brincar com bonecas e bonecos negros, se o cabelo crespo for apresentado como uma estética possível além do liso, se os traços africanos em nossa população deixarem de ser considerados feios e pessoas com tais traços puderem ocupar espaços de visibilidade. Então, será mais fácil para quem compartilha essas características se identificar, lutar contra a nossa sociedade racista e sofrer menos, ser menos afetado psicológica e sentimentalmente.
Em pleno século XXI, ano de 2016, ficar feliz ao ler uma matéria que tem como título “Barbie ganha novas formas de corpo, tons de pele e cores de olhos”, nos faz perceber o quanto ainda estamos distantes da representatividade que tanto precisamos. E não são só os negros, em especial a mulher negra, que sofrem. Todos aqueles que não se encaixam no padrão de beleza estabelecido não conseguem também se enxergar na grande maioria dos espaços, não se sentem integrantes de um meio ou de uma cultura.
Sofrimento e baixa auto-estima são apenas algumas das consequências negativas da falta de representatividade na sociedade brasileira. Enquanto as cores reais das pessoas não estiverem colorindo todos os espaços, sem exceção, enquanto existir um formato melhor do que o outro, corremos o risco de criar uma sociedade desconexa da diversidade, que acredita em espaços pré-determinados. A representatividade mudou a minha vida, me aproximou dos meus semelhantes, me fez descobrir a minha beleza e entender porque ela causa tanto estranhamento. Infelizmente, ainda somos uma sociedade de padronizações que não sabe lidar com a diversidade. A desconstrução está em processo!
Obs: O documentário citado no texto chama-se “Desconstruindo” e foi produzido pela estudante Anna Paula Prado, do 3o. ano do curso de Relações Públicas da UEL.


Fiama Heloisa é formada pela Universidade Estadual de Londrina. Publica no blog Coletivo Juremah

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