Florescer

  –  Um conto de Mona Lisa da Silva  –

 
Era uma madrugada de quinta-feira e Rosa não conseguia dormir. Seu corpo virava de um lado para o outro na cama e nada dela adormecer. Tudo tinha sido intenso demais e ela, acostumada a não receber esse tipo de afeto, não parava de pensar em tudo o que tinha acontecido.
Tempos atrás, Rosa tinha ido à um terreiro de Umbanda e lhe disseram que ela precisava parar de afastar todos os “pernas de calças” que apareciam em seu caminho, que ela precisava deixar o amor fazer morada. Rosa ficara sem jeito, sorriu desengonçadamente e acenou positivamente com a cabeça como quem diz “sim senhor”, mas Rosa era complicada. Pelo menos em relação ao amor…
Rosa sempre teve dificuldades de se relacionar com as pessoas, principalmente quando a afetividade ultrapassava o campo das amizades. Ela até achava bonito quem amava desesperadamente, deliberadamente, alucinadamente, exageradamente… mas ela não. Ela não conseguia sentir assim e achava que esse tipo de coisa, de sentimento, não era para ela. Ela até tentou algumas coisas, mas o máximo que foi capaz de sentir foi um ventinho na nuca, um sussurro no ouvido, um friozinho na espinha.
Ela era exatamente como todas as mulheres da sua família e desde sempre aprendeu que a luta pela subsistência, que manter-se forte, firme, atenta era mais importante que o amor. Assim, ela aprendera que suas necessidades individuais, de amar, por exemplo, não eram tão importantes quanto a luta por ajudar a manter sua família, com pouca ou nenhuma representação masculina, de pé. Existindo, resistindo.
Na juventude, Rosa não brotou. Também pudera, diziam os vizinhos. “ Uma neguinha atrevida dessa, quem é que ia querer?” Mas Rosa seguia, o máximo possível sem deixar se abalar. Engolia o choro, reprimia os sentimentos, olhava paras suas iguais e seguia a vida, cultivando outras sementes, embora de quando em vez, aquele broto que não veio a florescer, voltava a incomodar. Rosa teve sempre muitos espinhos e sempre que possível, ela ia lá, arrancava todos, respirava um pouco e voltava a caminhar.
Já fazia um tempo que Rosa estava em processo de se conhecer. De se descobrir, se reconectar com ela mesma e aprender a se amar. Rosa foi aos poucos, brotando sozinha, ela tão menina, se viu assim mulher. E se viu tão forte, se viu tão bonita, se viu tão querida, começou a chorar. Perdoou sua mãe, perdoou sua avó, perdoou suas tias. Entendeu que elas, não tiveram tempo de pensar nessas coisas que martelavam em sua cabeça e que só lhe queriam bem. Rosa então começou a mudar, começou a florir. Demonstrou afeto e compreendeu que às vezes, para fazer-se forte, é necessário chorar. É necessário deixar-se transparecer, transbordar. E demonstrou sem medo e foi seguindo a vida, sem medo de amar.
E um tempo depois, Rosa se amando, começou também, a se enamorar. Rosa relutava, ainda em processo, não sabia como, no rapaz chegar. Volta a insegurança, mas Rosa se lembra, que pra ter afeto, tem que que se afetar. E foi dessa maneira, em uma quinta-feira, que Rosa já adulta, já empoderada, já dona de si, com um dos seus iguais, “um neguinho desses, mesmo atrevido, foi até pra fora, dizem que ele foi, foi lá pra estudar”, dizem os vizinhos, que Rosa inteira, foi-se tranpassar. E desse chamego, dessa afetividade, desse afrodengo, uma Rosa nova, uma Niara Rosa, em uma quinta-feira, a periferia veio enfeitar.
_________________________
Mona Lisa da Silva é estudante de Antropologia em Fortaleza, CE. Texto publicado na revista Escrita 47.

Arquivos

Categorias

Meta