Fogo-fátuo

  –  Um conto de Rafaela Martins  –

 
No meio de toda a confusão, a TV caiu do banquinho que a sustentava e permaneceu ligada. O pronunciamento da autoridade, dentro da caixa de led 32 polegadas, parecia uma outra língua e essa língua perdia volume e virava ruído conforme ela se dirigia para a porta dos fundos. Estava frio, mas ela não sentia frio. Estava úmido, mas ela não sentia a umidade.
As luzes azuladas, emitidas em confluência com os ruídos, compunham o plano de fundo de uma cena que em nada combinava com a vida real, embora em tudo a influenciasse.  “Não renunciarei”, alguém, se sentindo Deus, gritava com despeito e arrogância de dentro da máquina mágica.
Suas pernas se arrastavam por entre as roupas e objetos jogados pelo chão. Certamente, sabiam os invasores que a bela TV era aquisição recente junto com o Iphone 6 que ela esquecera no bolso. Em casa de bandido rico, só com mandato, mas ali foi no corre-corre, com arma apontada na testa e a sorte escolhendo um lado para defender.
Seu olhar estava fixo, mas fixava lugar nenhum. Era pesada a resistência que seus músculos precisavam fazer para vencer a montanha de entulhos espalhados, mas ela se sentia leve e, sem se perceber, acabou por deixar esquecido até mesmo um sorriso sonso e deslocado que caia da boca.
As luzes da TV, quebrando a penumbra, e os ruídos do vampiro engravatado, assediando os ouvidos, faziam daquela composição algo estranho e dado a embaraçar o pensamento. Aquilo que em seu corpo garantia o equilíbrio agora desempenhava um trabalho que a fazia ter vertigens e se sentir como uma gelatina sem estrutura. No entanto, em meio a tal letargia, seu coração resistia como um exército pulsando tão forte que era possível senti-lo na artéria do pescoço e essa era a única garantia que ela tinha, naquele momento, de estar viva.
Quando chegou no primeiro degrau da varanda, uma lágrima, que brincava de se equilibrar na ponta de seu nariz, logo encontrou o destino e foi se inundar na poça vermelha. Os olhos dela, então, encontraram os dele. Mas enquanto os dela pulsavam terror e vida, os dele já se vidravam em algo que nem parecia que tinha carregado qualquer sopro vital.
E ela nunca tinha se detido tanto tempo a mirar um cadáver. E ficou admirada ao entender ali, naquele momento, o que é esse negócio que se chama vida. Ela ficou intrigada porque aquele corpo que há poucos minutos atrás era rígido, energético, cruel e sedutor, ousado e destemido, detinha agora uma mesma rigidez, mas com informação totalmente oposta.
A rigidez pálida e mórbida de músculos que, agora eram apenas músculos, e de uma pele que, agora, era apenas pele e não um sistema integrado que, quando composto, fazia daquele homem de 1,88m um verdadeiro cavalo em desempenho e apetite. A energia, que há poucos segundos, sustentava um sorriso desaforado e umas mãos quentes e úmidas, era agora uma força que se espalhava pela atmosfera e que, tendo provido daquele corpo, agora rumava a se diluir no nada. E ela entendeu que aquilo era o fim da vida e que aquele corpo, já não era mais o corpo quente que a fazia estremecer debaixo da coberta.
Ela ainda não tinha tempo de racionalizar a sua dor ou de fechar seu luto, porque aquele enigma existencial preenchia todo o seu ser. Seus olhos não conseguiam mirar outra coisa que não fosse a massa moribunda que ela sequer conseguia mais chamar de corpo. “Como é possível? Como é possível?”
Ela, justamente ela, moça quase sem instrução, sem estudo, por que tal dilema existencial tinha que adentrar justamente ela? Já era hora de se ajoelhar em cima do cadáver e gritar e rezar como todas as vizinhas que perderam seus homens fizeram antes dela, mas a pobre criatura se encontrava paralisada por seus pensamentos que chegou a considerar cruéis.
“Como é possível me deter ao músculo, aos pelos, ao hálito, em um momento como esse?” Mas o fato é que ela continuava lá, admirando a falta de vida, entendendo, portanto, o que poderia ser essa coisa chamada vida, vendo o homem mais temido e poderoso que já conhecera diminuído a sua biologia e fragilidade, se sentindo ela, também, muito frágil, “uma má cristã”.
Mas a igreja já não fazia mais sentido, a casa já não fazia mais sentido, a autoridade que falava na TV já não fazia mais sentido, a polícia, maldita, que tirou tudo do lugar e acertou a bala fatal bem no peito já não fazia mais sentido, nem o peito fazia sentido. Só aquela atmosfera de vida que se dissolvia pelo ar fazia sentido.
Aquela atmosfera com um cheiro férrico de sangue coagulado. Aquela atmosfera fria. Mas ela não sentia frio. Aquela atmosfera úmida. Mas ela não sentia a umidade. Aquela atmosfera que era sorvida por seus pulmões e que fazia com que ela, sem querer, se enchesse do ar que era o último resquício de vida dele e que, em vez de fazer o oxigênio adentrar suas células, acabava por fazer com que a morte fosse tragada e entendida pelo seu corpo.
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Rafaela Martins é jornalista e atriz em Londrina, Pr. Conto publicado originalmente na revista Escrita 47.
 

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