Fome

  –  Um conto de Adna Rahmeier  –

 

César levantou 7:20 no dia 28 de Abril de 2017. Um pouco mais cedo do que nos últimos meses, estava desempregado e seu horário estava meio louco. Fazia um bico aqui… outro ali… mas ultimamente não encontrava serviço. Tinha que trabalhar com o que pintasse. E quanta furada em tão pouco tempo! Era cada condição…
Com 38 anos de vida, já tinha uma casa para sustentar e dois filhos pra alimentar. Logo que acordou, sua filha que não ia ao Colégio aquele dia por causa “da greve” lhe disse:
– Bom dia papai! Hoje não vai ter aula! Podemos ficar o dia inteiro juntos!
Mas logo nesse dia ele tinha um desses bicos pra resolver.
– Poxa filha, logo hoje eu tenho um trabalho pra fazer! Não vai dar, mas tento voltar mais cedo pra aproveitarmos a noite.
– Você também vai na greve?
– Não! Que isso! Da onde tirou isso menina?
– Falem mais baixo – disse a mãe – o bebê está dormindo.
– É que minha professora disse que amanhã todos nós tínhamos um compromisso importante. Com a greve. Que ela iria na greve e por isso não ia ter aula.
Poxa.. pensou, César. Criança tem cada uma.
– Mas eu, minha filha, sou um trabalhador e preciso colocar comida dentro dessa casa quando dá.
A menina ficou sem entender muito e continuaram a tomar o café.
Antes de sair de casa, Ana, sua mulher pediu pra que trazesse alguma comida do mercado. Podia anotar ali na mercearia.
Na saída de casa percebeu mais pessoas do que o costume no ponto de ônibus. Quando chegou, ouviu:
– Será que vai ter ônibus hoje?
É difícil falar sobre o silêncio. Era pra estar em greve, e estamos em greve. Mas a cabeça não para pra pensar. Nos colocaram em um estado de alerta onde estamos constantemente procurando respostas.
O ônibus apontou lá da esquina debaixo. Ufa! O primeiro alívio do dia…
O ônibus já estava sem lugares pra sentar. Todo mundo em pé. Coisa rara. César morava longe do Centro.
Chegando no TTU, local em Foz do Iguaçu que marcaram o encontro para sair em protesto. O local estava repleto de pessoas. Estudantes, idosos, pessoas de classe alta, trabalhadores… como ele. Durante toda a semana vinha construindo, com toda essa agitação externa, sua própria opinião sobre a tal “greve”.
A idéia é nossa e é simples. Aquela velha maneira de repor justiça: se unindo. Parando. Protestando. Afinal, somos nós… as pequenas formiguinhas que movemos esse mundo.
Nós queremos sim melhores condições, mas onde que tirar décimo terceiro, férias, aumento a exaustão em horas de trabalho, e mais vários detalhes que irão ferir o formigueiro a longo e lento prazo tem a ver com as melhores condições?
Dentro desse devaneio logo se dispôs pra realidade com um esbarrão de uma mulher. Foi caminhando umas 4 quadras até o Hotel que iria fazer o extra. Chegando lá…
– Ah! Você veio? Disse com um tom um pouco constrangido seu sub chefe.
– Sim. Hoje é meu dia de ficar na vaga do Nelson, lembra?
– Pois é. Acontece que hoje só vai precisar de um recepcionista… essa tal de “greve” diminuiu muito o movimento e não vamos precisar hoje. Achei que ele tinha te avisado.
Que merda, perdi uma passagem… pensou ele. E a vinda até o centro.
– Não avisou não, mas tudo bem… terça eu volto. Será que tem como pelo menos me compensar a passagem até aqui?
– Claro, aqui está. O sub chefe lhe deu os 4 reais.
Ficou atordoado… pensou. Poxa, poderia nem ter acordado tão cedo. E ainda mais com essa greve… deve estar um inferno lá no terminal. Mas vamos lá.
Chegando lá já havia uma multidão. Começou um empurra empurra. As pessoas começaram a marchar em direção a avenida Brasil e ele foi sendo levado.
Quando nossa vivência for deturpada e nossos direitos estuprados, então nos tornaremos um só. Um grande o suficiente pra calar aqueles que se dizem gigantes, mas que não conseguem ao menos enxergar a sua pequenice.
De repente, essa ficha caiu para César. E para muitos que estavam ali só por instinto… só pra ver como vai ser.
Isso tudo alcança todas as camadas sociais, pois trabalhar é um comportamento universal. Todos nós trabalhamos.
A ideia está aí. É sobre nos unir.
Gritar cada um a sua maneira que o país é pra todos nós. E não só deles. Fazer lembrar que os funcionários são eles, e que são eles que na verdade, trabalham para nós.
Começaram os gritos, FORA TEMER!, GREVE GERAL! E deles nasceu essa consciência de que o Brasil foi tomado pelo crime organizado. Tiraram nosso direito de escolher. E continuam fazendo isso.
Se a crise é grande, a saída dela tambem deve ser.
Não é sobre partidos e organizações, não é sobre ser de esquerda ou de direita, não é sobre golpe ou com certeza golpe. É sobre direitos sendo retirados. Sobre o dia a dia. Sobre a rotina que serve o capitalismo de bandeja, sem o garçom ter tempo de servi-lo.
Aquilo tudo sob seus olhos não era devaneio. Era sobre o seu dia a dia. Sobre a sua luta pessoal. César descobriu nesse dia que ele tem voz e como dizem aqui no Brasil, que paz sem voz é medo e ele já não iria mais sentir medo.
Chegando no meio da passeata, ouviu um certo discurso:
“A reforma da previdência, banalmente colocada como reforma trabalhista (perto do 1° de maio) nos rouba direitos historicamente adquiridos que só tinham até então uma função básica de condições de trabalhos.
Também congelaram os gastos com a educação. Diminuíram o apoio a programas sociais e ONGs. Globalizaram a estupidez. Quantos anos, nós brasileiros, envelhecemos nesses últimos 9(?) meses? Já está na hora do parto.”
– Pelo menos mais 38, respondeu mentalmente.
Marcharam toda avenida JK juntos, com cartazes. Como um só.
No final, ele sentiu que seu dever naquele dia não era ir trabalhar. Mas que ele queria sim ter participado da greve, como perguntou sua filha mais cedo. E participou, e se representou. E sentiu aquele alívio de trabalho bem feito que sentimos, quando estamos bem. Aquele alívio que a professora ensinou a sua filha no dia anterior.
Foi para casa. Passou antes na mercearia. Pegou uma carne, pão e café para mais tarde e algumas frutas. Dali levou não só as comidas, mas a fome de não aguentar mais. Falou da sua experiência pra sua família e todos eles entenderam que o que está em jogo é toda a vida deles. E não só de si mesmos.
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Adna Rahmeier é poeta e artesã em Foz do Iguaçu. 

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