Tempo de pandemia: artistas de rua e seus desafios nos semáforos de Foz

Além da preocupação com a covid-19, é menor a circulação pessoas nas ruas, o que faz a renda cair. Reportagem acompanhou artistas em semáforos de Foz no seu ganha-pão.

 

O argentino André Villalba (Fotos e vídeo de Marcos Labanca)

Há mais do que claves para o artista equilibrar em apresentações sob o semáforo. À harmonia de movimentos e performances que são o ganha-pão, soma-se a preocupação com a covid-19. Nas ruas, é menor a circulação de moradores e nenhum turista. É perda de renda.

Com a atividade restrita e ganhando menos, o artista de rua alimenta-se quando dá; tem abrigo quando consegue dinheiro para pagar pousada. Quem é de outro país não consegue retornar devido ao fechamento das fronteiras.

Assista ao vídeo:

Aristas de rua

Arte equilibrista nos semáforos de Foz do Iguaçu em tempos de pandemia.#LEIA a reportagem: https://www.h2foz.com.br/noticia/ganha-pao-em-tempo-de-pandemia-artistas-de-rua-e-seus-desafios-nos-semaforos-de-foz

Publicado por H2FOZ em Segunda-feira, 6 de julho de 2020

Foz do Iguaçu é um corredor e via de acesso para a arte viajante de praticantes argentinos, chilenos, paraguaios e brasileiros. Em outros anos, o mês de julho teria vários deles colorindo os semáforos da cidade, o que não acontece no momento.

A pandemia alcançou o argentino José Villalba em Foz do Iguaçu quando ele tentava retornar para casa, em Buenos Aires. Ele viajava pelo Paraná e voltou às pressas para a fronteira, a fim de atravessar a Ponte da Fraternidade. Em vão. O caminho já estava bloqueado, e ele precisou ficar.

A reportagem o encontrou no semáforo da Praça das Nações (Mitre), no centro, antes da quarentena decretada no Paraná. O portenho faz intervenções de malabares, devil sticks, pirofagia e spinning, que é a arte de girar uma bola no dedo.

Argentino de Buenos Aires, sonho do artista é fazer uma grande apresentação no palco – foto Marcos Labanca

Hoje com 20 anos, José Villalba pratica malabarismo desde os 9, tendo começado a viajar com sua arte há dois anos, a convite de um amigo do Chile. “Estudei teatro por dois anos e comecei nesse período a estudar a arte circense. Foi quando comecei a praticar malabares”, relata.

Ele conta que, além do movimento menor de carros nas ruas, as pessoas estão mais temerosas, evitando interação mesmo a distância. “Uma mulher com um carrão enrolou uma nota e jogou no chão para eu pegar. Eram R$ 2. Muitas pessoas levantam os vidros dos carros quando nos veem”, expõe.

De acordo com José, o principal problema em sua atividade é que as pessoas não a entendem como trabalho ou expressão criativa. “Acham que arte é só a comercial. As pessoas não entendem quem decide viver de outro modo, isto é, fora do sistema”, narra.

O artista argentino tem o sonho de fazer uma grande apresentação em um palco, para muitas pessoas. Quando a pandemia do novo coronavírus passar, ele quer viajar pela Colômbia. “Antes, claro, vou ver a minha família”, revela.

Sobre como será a vida pós-pandemia, ele acredita que o ser humano será mais consciente. “Esse ‘novo normal’ de que falam é relativo. O que é o normal?”, indaga. “As pessoas são solidárias. Acho que serão mais conscientes principalmente sobre seu modo de vida e a relação com quem está próximo”, reflete José Villalba.

 

Multiartista

“Moro no mundo”, disse o artista de rua Guilherme Camargo, de 23 anos. Sua família é de Erechim, Rio Grande do Sul, e ele veio a Foz do Iguaçu conhecer as Cataratas do Iguaçu, pois gosta da natureza e de paisagens naturais. Fotógrafo, artesão, nos semáforos iguaçuenses faz malabares e spinning.

Em um dia “bom”, é possível angariar cerca de R$ 300 com a arte nos semáforos, informa. “Em dias ruins não se ganha nada. Comemos porque os colegas dividem o alimento”, frisa. Sobre a aceitação de seu trabalho, diz que depende de cada pessoa: “Algumas gostam de nos julgar”.

Nos semáforos, artistas fazem devil sticks, pirofagia e spinning – foto Marcos Labanca

Ele conta que toma as medidas preventivas contra a covid-19, como uso de máscara, álcool em gel e distanciamento. “Sempre estamos usando álcool, pois as claves ficam muito no chão”, afirma Guilherme. Assim que reabrirem as fronteiras, visitará sua mãe, que não vê há seis anos.

Graduado em fotografia pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), ele abandonou seu estúdio fotográfico para viajar e fazer arte. “Meu sonho é fazer um fotolivro com as belezas do Brasil, para mostrar o país aos brasileiros que pouco o conhecem”, conclui Camargo.

Guilherme Camargo quer rever a mãe no Rio Grande do Sul – foto Marcos Labanca

Antimídia

Performático, comunicativo e com uma produção impecável. A descrição é a de um artista com figurino que retrata um personagem de um filme bastante conhecido. Ele fazia sua apresentação em um semáforo na região do Boicy. Sua esposa atuava em outro sinaleiro.

À equipe do H2FOZ, o artista disse gentilmente que não queria dar entrevista. “Sou antimídia”, asseverou. Entregou um de seus poemas, reproduzido abaixo, e convidou a reportagem para conhecer seu trabalho no Instagram – uma mídia.

“Pensei que fosse brinquedo,
mas era pura verdade,
Da magia ao encanto,
da pureza a vaidade
Parecia até um conto,
mas era realidade
Fiquei um pouco tonto,
perdi a sobriedade.
Caminhando feito um louco,
foi quando senti vontade,
De sair correndo e gritando
eu te amo liberdade!”

Instagram: leooviegaa

 

Da página H2Foz / Texto: Paulo Bogler