Lembranças na madrugada (*)

  – Uma crônica de Julio Cesar Fornari  –

 

– Julio Cesar, trouxe sua janta.
– Obrigado, Dulce. Coloca aí em cima.
– Não demora pra comer, senão vai ficar fria.
– Pô, Dulce, já te falei, não coloca o feijão por baixo do arroz que eu não gosto, fica ruim pra misturar.
– Ah, Julio Cesar, só sei arrumar o prato assim.
– Dulce, é só colocar feijão por cima do arroz.
– Ah, não, eu tenho nojo, fica feio, parece vomito.
– Claro, se você pensar assim, vai parecer isto mesmo.
– Pois é, por isso é que não faço!
– Mas é assim que eu gosto! Mas tudo bem, deixa, quando a janta estiver pronta você me chama e vou e me sirvo.
– Ah, não, sempre servi você, por que agora com essa frescura?
– Porque eu não gosto do feijão por baixo do arroz. Todo santo dia falo isso com você! Na hora de misturar, acaba caindo um monte de arroz na mesa…
– Então não mistura, ué!? Eu não gosto de arroz e feijão misturado…
– Porra, mas eu gosto!
– Ai, que nojo!
– Dulce, vamos fazer assim: quando a comida estiver pronta, você me avisa e vou lá e me sirvo, ok?
– Nada disso. Sempre servi você e vou continuar servindo, não abro mão. Pára com isso, Julio Cesar.
– Então me serve do jeito que eu gosto, só isso que te peço.
– Tá bom, mas não precisa ficar nervoso. Come hoje assim e amanhã faço do jeito que você quer. Aarrrrrrgh.
– Pronto, resolvido.
– Só vou fazer isso, porque amanhã é macarrão! Ha ha ha.
 
(*) Dulce trabalhou na minha casa por 15 anos e era uma pessoa adorável. Muitas saudades, tempos bons que não voltam mais, que nesta madrugada me vieram à cabeça e aos olhos.
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Julio Cesar Fornari é músico e produtor cultural em Foz do Iguaçu, Pr. 
 
 

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