Londrina, eu te amo

  –  Uma crônica de Nilson Monteiro  –  

Crepúsculo em Londrina, fotografado por Flávio Benedito Conceição
Crepúsculo em Londrina, fotografado por Flávio Benedito Conceição

Moro neste lugar, onde eu viva no mundo, há exato meio século. Aqui cheguei pré-adolescente, aos quase 13 anos e me apaixonei por aquela fêmea estirada em um espigão vulcânico, de quase 30. Paixão grudenta por seu corpo rubro, aprendi esse sentimento que não me larga mais pelo resto da vida.
Conheci suas casas de madeira encardida pela chuva que respingava a cor do chão e enrubescia a pintura, qualquer uma. Ou mesmo as casas de peroba, que guardavam o rosa dos seus finais de dia migrando para o escarlate.
Como não me apaixonar por aquela selvagem caipira e metropolitana, cercada de indígenas (Paiquerê, Irerê, Tamarana, Ibiporã, Cambé…), metida a besta ao imitar os ingleses, seus criadores, ao abrir os braços para o mundo, sem preconceitos ou frescuras de madama?
Como não fincar olhos na mistura humana, aquela meio senhora meio menina, meio campo aberto aos carinhos, mansos ou violentos, ateus ou religiosos, agnósticos ou poéticos, daqueles que amassaram sua carne fértil, cor de fogo, de desafio, de todas as cores… Aquela senhora pouco dada a tradições e memórias, jogava seus laços de visgo e adeus viola. Ninguém queria deixá-la aos deuses ou aos ímpios, muito menos eu.
Muito afeita à opulência do café, ela viveu seus anos loucos, que os mais velhos, mais prósperos ou mais empobrecidos contavam para nos enfeitiçar ainda mais. Bebi daquele feitiço até quando ela era pouco mais que quarentona e continuava bela e provocadora. Tinha guardado em cicatrizes que lhe cortavam o corpo e o espírito as riquezas dos cafezais em flor, braços estendidos à fartura e à loucura. O cristal do gelo queimou suas entranhas naquela divisória dos anos 70, mas não esfriou sua alma, agora habitada por milhares tangidos dos campos. Eu já estava perdidamente aninhado em suas vestes, costumes e travessuras.
Ah, sim, ao longo deste tempo fui aprendendo a desenhar melhor as letras para exprimir de uma forma pulsante aquilo que trazia dentro do peito desde que cheguei às suas fronteiras pelas curvas de São Jerônimo da Serra, e a encontrei iluminada e mutante.
Jacu assumido, nascido em um tiquinho carinhoso de cidade de nome quase pomposo – Presidente Bernardes – no interior paulista, já havia rodado um bom pedaço de chão pelas mãos de meu pai, viajante que morava um ano ou dois em cada urbe deste país. Até então, tínhamos fincado estacas em seis ou sete cidades, se não me engano. Ele e minha mãe também grudaram neste terreno roxo e estão agora, graças a Deus, enfurnados para sempre nele. Amém.
Nem mesmo em suas medidas calorentas minha alma cigana apaziguou-se: morei no Centro, Aeroporto, Vila Portuguesa, Vila Cazone, Igapó, pra lá e pra cá. Convivi e convivo com todas suas tribos, com igual alegria, sem problemas de signos, de status ou dogmas.
Esta senhora menina, que conheci aos 30, está ficando mais velha e, parece, cada vez mais nova. Sei lá. Essa dialética traz bons e maus costumes, e pouco me importa se ela tem rugas ou traços de idosa, embora na idade da Humanidade não chegue nem de longe a ser púbere.
Não é mais virgem: começa a se preocupar com sobrenomes, a trajar finos modelos para eventos idem. A dividir seu corpo em vários, cultivando guetos, virando Babel de interesses, desfazendo a mistura, parecendo duvidar de seu próprio DNA. Etc.
Importante é que não consegue esconder suas dores, muitas, e feridas. Ao longo dos anos, me acostumei a perguntar-lhe: terra de sangue, quantos pães, ou versos, ou rezas, ou discursos, ou abraços, ou comunhões, são necessários para curar tua dor? Quantos? Não consigo responder. E ela também parece que não.
Mas não esconde suas alegrias, também muitas. Continua uma senhora verde em sua essência. Verde em seu coração, embora um tanto quanto desleixado, desgalhado ao sugerir pobreza à lembrança do verdejante e os gorjeios de outrora. Verde em suas bordas, que guardam o por de sol mais poético do planeta. Verde em seus distritos. Verde em seu espírito, que nega o amadurecimento e continua jovem, às vezes até levada a aberrações adolescentes, próprias da idade diria um avô desses que perambulam por seus espaços.
Tem lá suas frustrações, que também são muitas, mas penso que continua a mesma. Está sempre disposta ao novo, ao que virá, com adjetivos aos cachos: progressista, provinciana, maliciosa, moralista, respeitosa, rebelde, oposicionista, religiosa, ateia, comunitária, individualista, democrata, centralizadora, preconceituosa, liberal, e por ai vai colecionando apelidos que colam ou não em seu jeito de ser.
Esta é a Londrina que amei à primeira vista e aprendi a amar.
Escrevo e repito: cheia de ginga e respeito por si própria. Orgulhosa até em seus costumes rurais, que recolheu em suas veias centrais e dá o tom musical de suas lojas. Esta é Londrina, onde malandro não dá rasteira em sapo. Onde a amizade ainda é um exercício de carinho.
Feito a viola desdentada que sola em sua alma junto ao forró que anima sua periferia e ao rock que destila em suas avenidas. Feito a saudade que roda com os polaróides nos antigos cinemas de rua e ainda crepita no que restou e está sendo reconstruído do Ouro Verde. Feito a paz líquida ainda possível em seu lago, mesmo quando muito sujo por seus amantes. Feito essa massa de emoções que me assaltam quando falo/escrevo de você em qualquer banda do mundo, sem referência, mistura de gentes e línguas, santa e provocadora querência.
Você só tinha quando te conheci, aos quase 30, e tem agora, mais de 80, uma sina: ser para sempre menina, tendo oito ou oitenta.


Nilson Monteiro, poeta, escritor e jornalista em Curitiba, Pr. Crônica publicada pelo autor no dia do aniversário de Londrina, a cidade que escolheu como sua desde a adolescência.
A foto é de Flávio Conceição, fotógrafo londrinense.
 

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