Marcas (in)visíveis

  –  MinC estimula expressão e o registro da história das mulheres de povos originários   –

“Eu comecei minha luta indígena quando era criança. Meus pais também são indígenas e me

Arian: 'Em 2002, entrei na luta pela nossa terra. Passei por muitas  dificuldades quando comecei a lutar. Meu esposo não entendia a minha luta, porque eu viajava tanto." (Fotos: reprodução do livro)
Arian: ‘Em 2002, entrei na luta pela nossa terra. Passei por muitas dificuldades quando comecei a lutar. Meu esposo não entendia a minha luta, porque eu viajava tanto.” (Fotos: reprodução do livro)

criaram onde vivemos até hoje – Aldeia de Cumuruxatiba. No início, as casas eram de barro e palha, não havia o homem branco e nem ninguém de fora. Minha mãe teve apenas uma filha mulher: eu. Meu pai é pescador, mas hoje já não pesca mais, pois já tem seus 80 anos de idade. Meu pai passava muitos dias no mar. Ele enfrentava o mar para trazer o mangute (comida) para nos alimentar. Minha mãe tinha que lutar para nos dar de comer. Apesar de gostar muito de estudar, com apenas dez anos de idade comecei a trabalhar de babá. Até aí eu não tinha conhecimento dos meus direitos como indígena. Minha mãe falava do “fogo de 51”. Ouvindo minha mãe, comecei a entender nossa história e, em 2002, entrei na luta pela nossa terra. Passei por muitas dificuldades quando comecei a lutar. Meu esposo não entendia a minha luta. Não entendia porque eu viajava tanto. Tive que escolher e escolhi a luta. Graças a essa luta, hoje há várias aldeias que ajudei a construir. Uma delas é a Aldeia Dois Irmãos, da qual sou cacica.”
Este é o relato de Arian Pataxó, a cacique Maria D’ajuda dos Santos, que faz parte do livro “Pelas Mulheres Indígenas”. Junto com os depoimentos, a publicação também reúne diálogos relacionados com as questões de gênero e etnia promovidos por uma rede de mulheres de povos originários do Nordeste do país.
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A cacique Arian Pataxó (Maria D’ajuda dos Santos) junto com as mulheres de sua aldeia que trabalham na horta

Luta  – No ano passado, um dos projetos selecionados no edital de Redes, lançado pela Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural do MinC, foi a rede “Pelas mulheres indígenas”. O projeto qualificou 16 mulheres indígenas do Nordeste do Brasil para se tornarem agentes multiplicadoras da transformação social.
Elas atuam em suas comunidades para fortalecer outras mulheres e para dialogar sobre seus direitos. A rede está presente em oito comunidades indígenas do Nordeste – Pataxó Hãhãhãe, Tupinambá, Pataxó do Prado e Pataxó Barra Velha (Bahia), Xokó (Sergipe), Karapotó Plaki-ô e Kariri-xocó (Alagoas) e Pankararu (Pernambuco).
“A violência que mais sofrem é a doméstica. É bem visível, a violência física. A psicológica, humilhações, xingamentos, são violências sem marcas”, reflete Potyra Tê Tupinambá, que faz parte da rede e é da etnia Tupinambá.
Pela rede, são realizadas rodas de conversas nas comunidades e distribuídas cartilhas sobre os seus direitos. A rede também publicou o livro Pelas mulheres indígenas, distribuído gratuitamente nas aldeias e para download na internet, sobre histórias de mulheres indígenas guerreiras.
Para acessar e ler histórias “Pelas Mulheres Indígenas” , clique aqui
Violência doméstica, trabalho forçado e imposição de cultura alheia são alguns dos problemas enfrentados. Naiara Tukano, da etnia Tukano, no Amazonas, da região de São Gabriel da Cachoeira, explica que o primeiro passo para reverter esse tipo de situação é promover o diálogo e dar voz às mulheres indígenas.
“É preciso ouvir as mulheres, para que, a partir desse diálogo, possamos dizer qual é nosso pensamento, nossa importância, nosso espaço. O papel da mulher dentro e fora da aldeia é fundamental, somos guardiãs de nossa cultura e povo para continuar existindo”, afirmou.

Oficialidade e números –
À época do lançamento do projeto, Juca Ferreira, ministro da Cultura, enfatizou: “Não há possibilidade de pensarmos num Brasil democrático, no século XXI, sem que a sociedade brasileira assuma, com responsabilidade, os direitos dos povos indígenas”.
Nesse recorte, um olhar mais atento da sociedade deve ser feito em relação às mulheres indígenas, muitas vezes esquecidas. Um dos mais recentes relatórios das Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o tema, embora datado de 2010, chama atenção pela gravidade. Segundo o estudo, uma em cada três mulheres de povos originários é estuprada durante a vida. Outra pesquisa da ONU, de 2013, enfatiza que a violência contra meninas e mulheres indígenas é pouco discutida e velada na maioria dos países.
Naiara Tukano afirma que o espaço da mulher indígena ficou invisível por não estarem na linha de frente. “Em nossa história, usaram a mulher para dominar o povo, entraram e fizeram com que houvesse discórdia no povo e isso fez com que muitas mulheres fossem violentadas e roubadas dentro de suas aldeias (por militares, por dominadores, por patrões). Somos o centro da continuidade do nosso povo e da nossa linhagem”, finaliza.


Com MinC

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