Mochilas e moradas, a dualidade entre os mundos

  –  Um texto de Karina Nazario Moschkowich  –


Nossa casa, “o corpo da alma” como diz BACHELARD em “Poética do espaço”, é realmente o lugar onde reina nossa segurança, lembranças, raízes, memórias.
Quando a criança separa-se do seu vínculo familiar para chegar ao espaço escolar é a ruptura da segurança, é a realidade com novas cores e formas, questionamentos, outro mundo.
Se na ótica do adulto estar em outro espaço,  que não nossa casa (mesmo que sejamos muito bem recebidos) já não é tão confortável, imaginemos esses seres que nunca estiveram em outra “casa” que não o seio familiar?
Porém, nós pais, família, precisamos preparar nossos rebentos para serem abrigados em novos lares.
A escola na maior parte do mundo ocidental não é uma questão de escolha, sim uma obrigatoriedade. A escola é constituída nessas sociedades como o único espaço de saber. Para ser considerado culto é importante o saber acadêmico. Os bancos escolares são o único meio de ganhar notoriedade, são eles que permitem que o sujeito siga cidadão no conceito amplo da palavra se tiver estudo, como se diz.
A escola, então, será sua casa, seu abrigo, suas memórias, suas relações. Será nela que a criança formará sua independência, suas responsabilidades, seus questionamentos sem a interferência do seio familiar. Será nessa casa que suas conquistas pessoais acontecerão, será nessa casa que seus medos serão confrontados, as dúvidas serão discutidas sem amarras de conceitos pré-concebidos.
Nós, família, estamos desenvolvendo bolhas em nossos filhos. Palissy medita sobre “uma pequena lesma que construía sua casa e sua fortaleza com sua própria saliva”. Estamos salivando. Lambendo as crias como se ali nossa casa fosse o único lugar e com as únicas pessoas que possam estar.
Precisamos, com urgência, deixa-los viver. Conhecerem frustrações. Entender que o mundo gira e que as forças caminham além do que possamos controlar.
Nossos filhos não carregam suas próprias mochilas. Nossos filhos não sabem dizer não. Nossos filhos não sabem ouvir não. As famílias interferem. Acreditam na escola sem partido. Falam por seus filhos. Os massacram com mil atividades. Não permitem que a liberdade seja uma escolha. Para alguns ócio é sinônimo de desatividade. Brincar é para quando dá tempo e o tempo não espera. Fazer escolha não é uma opção. Selecionamos o que eles ouvem ou comem. O que a escola pode ou não oferecer.
A escola por sua vez, dá continuidade a esse processo. Em especial as privadas. Aulas ininterruptas de línguas, de assuntos sem conexões com a vida. Intervalos de 15 minutos que ou você lancha ou você papeia. São os pais que determinam o ideal para seus filhos. Não há discussões, pois elas remetem a conflitos e eles não são saudáveis ao mundo cor de rosa.
Diante disso nossas crianças gritam por socorro. Pedem socorro de suas próprias famílias, de suas próprias escolas. De suas moradas físicas, de suas moradas corpóreas.
Finalizo essas linhas remetendo à “Baleia azul”. Um jogo de consequências desastrosas.  Mas são consequências das não escolhas. Dos pedidos de socorro. Da obrigatoriedade de estar incluído embora seja único. E como únicos se incluem? De não saber dizer não.
Não há culpados, há vítimas. Vítimas de uma desconstrução da liberdade. A escola não tem liberdade de ter suas propostas colocadas em prática. As famílias precisam ter liberdade de exercer seu papel. As crianças precisam de liberdade para pensar e agir.
O mundo azul reflete discussões latentes sobre a escuridão da liberdade movida a monitoramento.
Nossas moradas precisam ter cheiro, precisam ter Eu e não Eus. Precisam de nós.  Precisam de individualidades. Precisam de companheirismos. Em nossas moradas habitam seres que têm consigo a maior das moradas, as suas próprias, seus corpos, suas mentes. Não somos os outros, não somos espelhos, nem marionetes. Somos liberdade, somos moradas.
Deixemos nossas crianças serem elas. Com medos, anseios, questionamentos. Deixemos nossos filhos carregarem suas mochilas recheadas de descobertas e interrogações. Deixem que essas mochilas façam a ponte entre as moradas. Mochilas são moradas. Moradas são a história. E a história é a vida!
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Karina Nazario Moschkowich é pedagoga. Texto publicado na revista Escrita 46

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