Momento de ruptura entre os adolescentes e a literatura

  –  Um comentário de Maria Cristina Lobregat  –  

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A literatura infanto-juvenil, em sua gênese, está atrelada ao contexto escolar tendo como alvo a oferta de textos “adequados” a uma faixa etária que não lê mais La Fontaine por ser muito infantil, nem tem maturidade para a leitura das obras consagrada de Machado e Alencar. Assim surge a literatura infanto-juvenil que se caracteriza como a solução para preencher um espaço vago entre o Ensino Fundamental (séries iniciais) e o Ensino Médio.
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Entretanto, encontramos a escola perdida, capenga e pouco produtiva por não conseguir desempenhar seu papel de formadora de leitores, mesmo com uma variedade de publicações à disposição.
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É possível encontrar práticas escolares mais preocupadas com o currículo do que com a autonomia de leitura dos adolescentes, sendo comum aplicar metodologias que usam a literatura como um pretexto gramatical no qual o texto literário passa a ter uma função exclusiva de explorar as questões de funcionamento da língua e suas relações entre a fala e a escrita, o que leva o professor a acreditar que está abortando a fragmentação de conteúdos curriculares.
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Essa ação escolar não se caracteriza com um ato exclusivamente negativo, no entanto, o acesso a literatura não deveria ser restrito em situação de ensino gramatical, o que revela a falta de preocupação com a formação de leitores com curiosidade e reflexão em torno do que acontece entre o sujeito e o objeto a ser conhecido no ato da leitura.
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O tratamento secundário dado ao texto literário assume sua primeira colocação apenas no momento de obrigação da leitura de obras de literatura infanto-juvenil, normalmente adotadas pelo professor, para posterior avaliação mensal ou bimestral. Assim mais uma vez a escola sepulta a oportunidade de escolha dos adolescentes ofertando-lhes o castigo e a obrigação e ler. Essa postura é encontrada na maioria das escolas de ensino fundamental como um mérito, pois, essas instituições se envaidecem ao divulgar que seus alunos lêem um ou mais livros por bimestre obrigatoriamente.
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O jovem que passa pelo ensino fundamental encontrará um novo desafio quando chegar ao Ensino Médio, o de suportar os clássicos da literatura brasileira, por não ter sido convidado, mas obrigado a entrar no mundo da leitura sem saber encontrar o caminho da satisfação e construção pessoal no ato de ler. Qual a solução que esse refém do sistema escolar encontrará? Agora a exigência não se restringe a prova bimestral do livro, mas também aos conhecimentos que deve provar no vestibular. Não seria ousado demais querer uma cultura de leitura entre os  adolescentes que vivem todo esse processo de escolarização?
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Repensando, sobram poucas opções, somos levados pela escolha da destruição e desaparecimento da escola que oprime, deforma, exclui e conclui seu ano letivo com orgulho de vencer o currículo. Essa escolha será atingida quando a importância da leitura literária for salientada, não somente para o sucesso de atividades escolares, como também para a formação pessoal do adolescente. Assim, o surgimento de uma nova escola, democrática e aberta para a assimilação de práticas mais eficientes e menos excludentes ainda pode ser um objetivo distante, mas possível de ser atingido. A mais acessível opção é acreditar!
OBSERVAÇÃO: Texto desenvolvido e publicado no ano de 2007

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Maria Cristina Lobregat, doutoranda pela Unioeste, é professora do ensino médio em Rio Branco, AC. O texto acima foi publicado na edição 6 da revista Escrita, na seção “Um Toque”.

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