Na hora mais fria do dia

  –  Um conto de José Maschio  –  

caacupeFoi na hora mais fria do dia que ela o possuiu. E foi na hora mais fria do dia que ele foi embora. Carmem de Los Rios ficou desolada. Mas não chorou. Uma de Los Rios não podia chorar em Caacupé. A terra da virgem padroeira de todo Paraguai. E em Caacupé, uma de Los Rios só perdia a virgindade após passar pela Igreja, a Santa Igreja Católica. Carmem não chorou, mas tratou de ir embora o mais rápido possível. Fugir, que uma de Los Rios não poderia ser motivo para fofocas das velhas guaranis que se reuniam nos solares das igrejas para resenhar os acontecidos do dia.
Na hora mais fria do dia, quando a Terra é acariciada, despudoradamente acariciada, pela Lua. Na hora mais fria do dia quando o Sol, dorminhoco, deixa a Terra aos cuidados lésbicos da Lua. Enquanto dorme, o Sol deixa a Terra em descompasso, sem saber o que quer da vida. Não é por acaso que a devassidão acontece nas madrugadas, especialmente na hora mais fria do dia.
Carmem de Los Rios, 35 anos depois de deixar Caacupé, contava aos netos _um menino de olhos claros e duas meninas amendoadas nos olhos pela herança guarani_ sobre o ménage entre Sol, Lua e Terra. Para espanto e admoestações do genro alemão. Mas Carmem não se importava com o genro. Sabia ela que o desejo e a devassidão não são privilégios dos nativos. Criados no erótico clima dos trópicos. A devassidão é um desejo humano, refreado a muito custo por regras, normas e leis. O mesmo desejo que permeia as relações humanas em todos os continentes.
Na verdade, era intenção de Carmem, uma obsessão dela, contar aos netos sobre aquele homem que foi possuído por ela, trinta e cinco anos antes em Caacupé. E que era avô dessas crianças. Um avô imaginário, que nunca iriam conhecer. Um pai também imaginário para a filha, que nem mesmo uma foto desse pai tinha. Em Caacupé, a lenda era que Carmem de Los Rios havia concebido uma criança branca, ungida pelo espírito santo.
Mas não era um salvador, sim uma santinha de olhos claros, mas amendoados pela herança materna. Na dúvida, o patriarca de Los Rios tratou de ordenar a construção de uma capela na entrada da estância e determinou rezas e ritos aos sábados. Os agregados e escravos gostaram da medida do patriarca. Junto com a obrigação de comparecer aos ritos religiosos, tiveram a folga semanal aos sábados.
E foi assim que os agregados e os escravos dos de Los Rios, o chefe político, jurídico e executivo de Caacupé, instituíram, em pleno século 19, a semana com cinco dias de trabalho. Os escravos e agregados de todo Departamento de Cordillera invejavam a sorte de seus semelhantes da capital. Pois só em Caacupé a semana se resumia a cinco dias de trabalho. E, no íntimo de cada um, sonhavam que a hora mais fria do dia propiciasse uma sorte dessas a eles.


 
José Maschio é jornalista em Cambé, Pr.

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