Não sou da companhia

Uma crônica de Izabel Campana

Eventualmente, acordo de mau humor. Não, não é raiva, mágoa ou irritação. É mau humor mesmo. O mau humor é um estado de espírito. É sensação, não sentimento. O mau humor não é direcionado como a raiva, choroso como a mágoa, é reativo como a irritação. O mau humor é. Simplesmente.

Em geral, ataca ao abrir os dos olhos. “Por quê?”, é o pensamento que me vem à mente. Por que já é dia? Por que agora? Por que sempre comigo? Por que eu? Desse momento em diante, toda uma forma de pensar distorcida se instala e não há mais volta.

Meu mau humor tem humor, não se enganem. Os mais próximos dizem que nesses dias fico até engraçada. Faço piadas de mau gosto com o mundo, sou politicamente incorreta.

Mas nem tudo são flores.

A interação é o mais difícil. Os chatos se proliferam. Tomam corpo e alma dos entes queridos. Todos no mais irritante bom-humor matinal. Sorrisos de propaganda de Corn Flakes. Não leva muito tempo para perceberem que não faço parte da companhia. Logo tem início o interrogatório e as acusações.

– Tudo bem? Algum problema? (com voz doce).

– Problema nenhum. Tudo bem. Tudo ótimo. Por quê? Parece que tenho algum problema? Te fiz alguma coisa? Estou aqui quieta, só. Não posso?

Não consigo evitar ser abominável. Quando o mau humor se instala, vem um gosto de fel das entranhas. Um nó na garganta. Um nó na cabeça. A vontade de estar só. Por que querem que eu participe? Que eu esteja de bom humor? Não, não posso. Não consigo. Também não quero. Ouviram? Nem quero. Quero curtir meu mau humor ácido e corrosivo.

O bom humor adora companhia e não se vê satisfeito até que todos participem. Finalmente, após alguma insistência e uma série de indelicadezas, meu mau humor acaba por afastar qualquer sinal de vida.

Finalmente estou só. Mas não basta. O mau-humor é a vontade de nem ser. Ao menos por um minuto. A companhia de si mesmo é suficientemente irritante. E os prognósticos são terríveis. Não há como se libertar dessa última e insistente chata.

E que chata. Para quem nada está bom. Que aporrinha os outros, é paranóica, petulante, desagradável. Como sou desagradável! Decido que os outros pensam o mesmo. Vou conferir.

– Sou uma chata, não sou? Estou te chateando com meu mau humor, não estou?

Ah, a negativa irritante. Mentirosos, todos. Acham que eu sou idiota? Que não sei que sou uma chata? Pior! Como não se irritam? Sou tão insignificante que tamanho mau humor e irritação não causam qualquer incomodo?

Determinada a provar que sou a chata mais chata do mau-humor mais mau-humorado, busco uma vítima. Não só o bom humor gosta de companhia. Como os dizem os ingleses, “misery loves company”.

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Izabel Campana é advogada, vive em Quito, no Equador. O texto foi publicado na revista Escrita 20